A Essência do Poetrix
O POETRIX nasceu pela necessidade. Transmitir uma mensagem
poética
em apenas uma estrofe de três versos já impõe uma grande
limitação; se, aliado a isto, temos ainda limitações
temáticas ou estilísticas, a dificuldade torna-se ainda maior.
Mas este não é o único entrave: perde-se em criatividade,
perde-se a possibilidade de alçarmos maiores vôos. O POETRIX tem
sido chamado de "anti-haicai" ou "filho rebelde do haicai".
Eu diria que ele é um 'herdeiro" do haicai, pela sua forma e um "herdeiro" dos
micropoemas e poemas-minuto, pelo seu conteúdo. Mas, não esqueçamos
que o terceto também tem uma tradição ocidental, oriunda
dos terzettos italianos, praticados por Dante Alighieri.
O POETRIX preza a similicadência (frases com um mesmo ritmo ou cadência)
ou, ao menos, o isocronismo (mais ou menos o mesmo número de sílabas)
(2). Mas isto não é uma regra. Aliás, é sempre bom
relembrar: não existem regras no POETRIX. No Manifesto Poetrix (3) apenas
identificamos algumas características principais, que viriam a contribuir
para a formulação da definição (ainda não
definitiva) à qual chegaram os integrantes do Movimento Internacional
Poetrix: um terceto contemporâneo, de temática livre, com título,
ritmo e um máximo de trinta sílabas, possuindo figuras de linguagem,
de pensamento, tropos ou teor satírico. Alguns teóricos defendem
a opinião segundo a qual o que diferencia a poesia da prosa é o
ritmo. Ainda assim, a poesia concreta despreza o ritmo; não seria ela,
então, nem prosa nem poesia? O POETRIX insere-se no universo dos tercetos,
possui padrão estrófico e rítmico mas, ao mesmo tempo, temos
visto surgirem POETRIX CONCRETOS, no espaço das três linhas. O que
vem à tona sempre é o conteúdo, na forma que melhor se adeque.
O POETRIX sabe o quer: tornar-se uma nova linguagem poética, que permita
ao autor realizar altos vôos num curto espaço, "desengessar" o
terceto, retirar-lhe as amarras, torná-lo contemporâneo. O POETRIX
surge no "rastro" de poetas como Leminsky, Millôr e Cacaso e
totalmente adequado à dinâmica e à velocidade da informação
no cibermundo em que vivemos. Mas um dos grandes enigmas da literatura brasileira
hoje é: Onde termina (ou terminou) o Modernismo? Esse movimento quase
octogenário é um divisor de águas. O recente e polêmico
livro Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século, tem a sua primeira
parte intitulada "Pré-Modernismo", adotando o conceito de Alceu
Amoroso Lima: "o que concede ao prefixo pré uma conotação
meramente temporal de anterioridade". Nela estão reunidos poetas
tão distintos quanto Augusto dos Anjos e Machado de Assis! Então,
a nossa literatura está claramente dividida entre a.M. e p.M? Mas o que
aconteceu após a Semana de 22 que realmente se diferenciasse da proposta
modernista? Talvez, apenas, o Concretismo e o Poema-Processo, que tem um apelo
muito mais visual, gráfico, do que semântico. Hoje, temos bons poetas
românticos, simbolistas, parnasianos, modernos; sonetistas, cordelistas,
trovadores, de visuais, de versos livres. Vivemos uma agradável "babel",
onde todos se entendem. Neste ponto, sim, o conteúdo é forma que
vem à tona... de qualquer forma! O Modernismo deu um tiro de misericórdia
nas "escolas literárias" ou, como diria Raul Seixas, "faça
o que tu queres pois é tudo da Lei". O POETRIX é tipicamente
modernista enquanto culturalmente antropofágico, deglutindo o que vem
de fora, transformando-o em algo nosso ("é moderno ser moderno").
Melhor seria considerar o POETRIX como resultante do experimentalismo de vanguarda,
da busca por novas formas de expressão da nossa criatividade ou, apenas
um exercício do que preconiza o mestre Ferreira Gullar: é preciso,
ao poeta, saber elaborar a sua linguagem.
Goulart Gomes, criador do Movimento Poetrix
Fonte: http://www.palavrarte.com/Entrevistas/entrev_poetrix.htm
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