
criancice abstrata
era, não era, tempo de guerra
uma vaca amarela me abriu
a taramela
era, não era, tempo de lei
um gato abstrato jogou
xadrez contra o rei
três torres cairam
a rainha ficou em pé
sapo na lagoa
cheirando chulé

Constatação
Semente
no chão
rega-se:
paixão
O olho de gato anuncia:
Sete vidas
Sete destinos,
Sete dores,
nenhuma saída.
Minipensamento
Eu queria ter feito uma tatuagem no ombro, outra no pé.
Queria ter colocado um piercing no umbigo e quatro brincos em cada
orelha...
Não tenho nada disso... sou careta, velha e medrosa... fumei
um cigarro de maconha na adolescência e a minha cabeça
caiu para trás... nunca mais cheguei perto da maldita. Passei
tão mal...
Vivi com um monte de gente, mas não tive filhos... nem marido,
mas muitos amantes... e tive cavalos, cachorros, galinhas, tartarugas,
maritacas, vacas e mais vacas, gatos, ratos, traças também
pela casa... e hoje me pergunto quem sou eu... você sabe?
A noite está chuvosa e eu aqui sozinha escrevo para você.
Tantas vezes me pergunto o porquê? Lembro do meu amigo Iosif
Landau que esborracha tudo o que pensa aos 80 anos de idade. Sem
censura, sem limite, dando mil foda-se para todos. Quero ser como
ele quando eu crescer e olha que tenho só a metade da idade
dele. Mas adoro saber que um dia vou escrachar tudo, como ele.
Ah, se vou!

gato
falta-me um gato aqui em casa
falta-me um olhar no silêncio
um miar no vazio
falta-me poema com pêlo
macio e ternurento
talvez me falte o cio
mas é de um gato que eu preciso!

o pires
seja de porcelana, seja de vidro, seja de plástico,
um pires é sempre um pires e mais nada:
tapete da xícara com leite até a borda
que me empresta mais bigodes
do que aquele bichano vagabundo, indolente , interesseiro
[e incansável]
a lamber as patas – cochilando – em cima do sofá.
seja escrito por extenso, seja só com um pê e ponto,
um pires é um pires mesmo sem gosto,
apesar do sobrenome pomposo
escrito na merendeira que levo para a escola.
seja fundo, seja raso, seja comprido, seja estreito,
um pires é simplesmente um pires:
aparador de gotas d’água da planta do vaso,
ou o prato de Darci, meu gato... Gato?
Gatos
Como é bom ser gato!
Gatos, aparentemente mansos e inquietantemente calmos, podem
subir em árvores, confiar numa mão desconhecida com
pão, mingau de arroz ou
um prato improvisado transbordando leite.
Como é bom ser gato!
De noite, até os pardos, podem mudar os canais só por
encostarem-se nas antenas de TV. Seus olhares, de gato, verticais,
vêm a
cidade de cima como se os telhados fossem horizontais. E, ao sentirem
um
ronronar na esquina, onde a luz do poste veste néon, viram
cinza mesmo que
chova, armam a cabeça do pênis qual um guarda-chuva
que arranha, batem e
apanham no mais inquieto momento de amor.
Como é bom ser gato!
De tarde, até os brancos, com jeito de sacana, deixam-se
acarinhar pelas avós com mais de sessenta anos. Não
há mais tricô nem
novelos. No ar um som de um romantismo caipira e uma vontade suicida
enquanto a música acontecer. Ainda bem que gatos têm
sete vidas.
Como é bom gato ser!
Podem fumar, comer a vontade, beber sem se preocupar se o pulmão
está perfeito, o estomago comportado ou o fígado
regenerado. Apesar do
entendimento de saber o quanto é maravilhoso ser gato, é necessário
ter
muito cuidado, até os negros, com as noites das sextas-feiras,
com as
escadas, com os pés desumanos que pisam sem a mesma maciez
das suas patas.
Como ser gato é bom!
Precisam ter muito cuidado ao perceber que as gatas até falam.
Driblarem com o corpo os dizeres românticos das que esperam
duplex: um
telhado revestido com boas telhas de piso e um sótão
próximo do céu.
Como é bom ser gato!
A única coisa permanente nos hábitos desses estranhos
vira-latas, é saber, mesmo inconsciente, que outros donos
chegarão e
aplacarão, momentaneamente, todas as sete fomes
Como é bom ser gato!
Mesmo sem residência fixa, todos são bem achados
não importa
aonde: seja na rua, na sala, no teto ou no porão.
Caixas de presente não são embrulhos
desate os nós dos sacos dos gatos:
presenteramente miamos
abaixo dos telhados.

Rendição
Vi, nos olhos do gato, a sua ira.
Crispadas, suas mãos promoviam o paradoxo do afago.
Retesados, os músculos do felino pronto para a fuga
denunciavam seu ânimo.
Como o bicho, submeti-me às suas garras,
submisso que sou, por livre vontade,
para meu gozo perigoso, aos seus desejos.
Vejo o seu sorriso vitorioso.
Compraz-me saber que, derrotado,
terei em troca o prazer:
prêmio de consolação,
mais valioso que o do orgulho da vitória.
Prefiro o seu carinho à glória e o seu amuo.
Rendo-me e rio,
um riso íntimo e silencioso que a expressão não
denuncie.

Reconhecimento
2o. lugar no I Concurso do Gato Coió - Cametá -
PA - abril/2001
O homem se rotula
De esperto e criador
Quando da natureza
É o maior predador.
Pensa que é o rei e só.
Mas esquece que é pó.
Iludido, repete sempre
Que só ele tem razão
E que seu único amigo
É o domesticado cão.
Seu pobre subconsciente
Repele o gato independente.
Todo animal da terra
Do rato ao condor
Se tratado com carinho
Nos devolve amor.
Ainda que coió indigente
Com o gato não é diferente.
Não se furta ao afago
Depois de alimentado
Brinca e se esfrega
Até sentir-se cansado.
E quem não deixa o amigo
Quando a pele corre perigo?
Pequeno telhado de zinco
Torna-se um palco rico
Onde nas noites sem chuvas
Qualquer gato paga mico.
Estando amando, ele mia
Compondo uma g(r)ata sinfonia.

desfolhar a margarida
bem te quero, mal te quero
hoje é meu, amanhã vá pro beleleu,
roleta russa, tiro nas fuças,
a margarida desfolha,
você não me olha,
sou seu yo yo
bolha do seu chiclete,
me faz sapatear o bolero de Ravel,
me faz dançar tango de Gardel,
me cutuca, me machuca,
faz cuíca da minha pica,
pra ti sou gato capado,
coração de mijo, alma de pinico,
gotejo sangue cereja,
não dou a mínima,
pisa em cima.

História de um temor nocturno
Murmúrios escutavam-se rente aos muros
e a paliçada erguia-se no peso das sombras
renegando os olhares curiosos das visitas.
Para além do alcance da vista, a luz de uma vela
e um acenar invisível projectavam-se, trémulos,
no verde novelo das heras espessas sobre a casa.
Um cão ladrava bem perto e o marfim dos dentes
iluminava os recantos da noite onde se acolhia,
afastando até os pingos de chuva bailando no ar.
Uma árvore gemia pela boca de um enforcado,
disfarçado de galho, pairando sobre as mandrágoras
e agasalhando os corvos na cor do luto da floresta.
Arrastando-se pelo chão de terra escura e fria
um emaranhado de mãos soltas de corpos nus
suplicava por sepulcros protegidos da força do luar.
Havia vermes esburacando os caminhos em busca
de alimento, como se estivessem treinados para a luta
e a humanidade fosse insuficiente para o seu apetite.
As varandas ameaçam queda no abismo e as funduras
atraíam a palavra morte para o centro das fogueiras,
onde nascem os esgares que ecoam nos purgatórios.
E lá estávamos nós, a multidão de desconhecidos,
nas eiras,
batendo confissões e anotando as culpas como se faz ao trigo,
sem precisar de levantar a poeira do joio no seio das consciências.
Se era um pesadelo urgia acordar com a destreza das almas
em danças de pecados por espiar, na refrega das vidas desregradas,
sem se pressentir quem manifeste por elas o maior ou menor dó.
As gargalhadas nervosas começaram a tomar conta de mim
quando um vulto se aproximou do meu posto de observação
e imaginei-me afinal a salvo. Ali, apresentou-se-me: Sou Edgar.
Vestia o negro das promessas traídas, tinha bigode e um
sorriso
a esvair-se por entre lábios finos e um chapéu do
século dezanove.
Eu repeti tremendo: Edgar? Sim, acrescentou. Sou Edgar Allan Poe.
O que fazes por aqui? inquiriu-me, acariciando um gato preto ao
colo.
E eu titubeei, antes de desmaiar, caindo desamparadamente ao solo:
- Ouvi o pio duma coruja, seguido de um trovão. Vim à rua
ver se chove.
20.07.04

Poemas com Gatos I
falta-me um gato
para fazer festas às palavras.
algumas chegam entre mãos
na carícia breve da madrugada.
enquanto não parto para ítaca,
viajo, aguardo circe
que me transforme em felino agudo.
depois é só encostar-me às pernas
e fitar-me
eu, nariz aquilino, olhos rasgados em mim
na verticalidade da íris;
lamber os pelos, a pele,
arquear o corpo na languidez do gesto.
ficar à espera que a palavra cresça.
Poemas com Gatos II
o rabo do gato desenha
letras árabes no mosaico da sala.
arranha o tapete de arraiolos,
rasga o jornal de letras
e um verso escapa-se pela janela entreaberta
uma pétala de violeta
é o tempo das violetas
fugiu para a janela da vizinha
um andar abaixo
talvez atraída pelo cisne de camille saint säens
no carnival des animaux
o gato enfurece-se com o silvo do vento
e quase me estraga o poema.
vale o método tradicional
um novelo de linha encanta o gato.
alguém pousa os lábios nos meus olhos.

O gato, a gota e a rosa
Na bruma de um canto_santo
Sonoro como a paz de um cego_ego
Arfo branas em redondilhas eternas
Por mim reverberam
olhos de planetas oitavas_estavas?
Balizam imaginação cintilante"
Que falta me faço,
Se recheio sou de um corpo
Que cala... que fala?
Observador desconhecido
Em patas aveludadas
Ronda meus olhos
Inúteis como o ontem
A canção recorrente
Goteja minha memória
No tom, que afinado
N´alma felina ronronaria_sem demora
Quem me dera silenciar
Em noite orvalhada
Serena, alimento dos dias vãos
Apenas botão que o valha
Toda lucidez vã
É sonho parco
não desabrocha
Na pétala finge ser O ser,
é rosa_sempre foi
Sem o saber,
É sombra de um nada-ser.

acorda
parece que perdeu a lua
e a procura por telhados e muros
olhando para um fiapo prata no alto
faz a serenata da agonia
mi- a- do -s desafinados
mas aquela não é a mesma lua de ontem
tão minguada ficou, a clara cara redonda
no chão um metro de lã dá ilusão
de ter finalmente encontrado
a irmã gêmea do céu
rola, enrola, pula, dá cambalhotas
num bailado de paus e de copas
assistem o rei e a rainha
valetes comandam os aplausos
a pelagem roxa macia
ganha listras pink cheguei
afia as unhas e se estende
em sua languidez satisfeita
com seu sorriso esquisito
dorme no galho de árvore
o gato da Alice.

tinha uma frase
...tinha uma frase no brilho do sol que estampava o amor da vida
no quintal, quando o gato, num miado de fome, estraçalhou
as fibras da frase que se bipartiu em vários segmentos de
pensamentos, sem consistência, dissolvendo assim a inspiração
que se recolheu à sombra da saudade, que me conduz sempre
a caminhar na esperança de um dia não precisar de
mais nenhuma frase e muito menos da saudade...
13.07.06

Gatos em teto ardente
Invado seu telhado. Sim! Ele é de zinco. Dispo a sensatez
e me visto da nudez. Pulo de assalto em seus braços e me
enrosco neles. Encantada com seu cheiro, eu cheiro cada vez mais
para facilitar minha busca de suas sobras, você se excede
no amor enquanto eu vivo na escassez. Lanho-me na aspereza de seu
queixo e me banho em sua saliva. Esfrego-me em seu peito e me tatuo
em cada milímetro de seu corpo até ouvir seu suspiro
de animal rendido. Farto minha fome e até mudo de nome!
Destelhada viro gata para viver nessa morada mais que de zinco,
muitíssimo mais, é um verdadeiro brinco de ternura.
A quentura vai além do que indica o termômetro da
prudência.
Mas quem disse que devo à ela obediência?

o gato preto
eu tinha um gato preto
manhoso e brincalhão
companheiro
da minha infância
diziam para mim
ele tem sete vidas!
menino arteiro que era
mil vezes tentei
mil vezes ele escapou
ah! ele tem sete mil vidas
isso sim... rsrs...
20/7/2006 16:10

Marcas
Meus gatos deixam marcas pelas paredes
ao entrarem pelas janelas,
na madrugada
Homens me deixaram marcas de lágrimas no rosto,
ao saírem na madrugada.
Ambas marcas facilmente removíveis
com água limpa.
As marcas na alma?
Estas removo-as com poesia.
08/04/99
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blinda
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