A Dama do Metrô
02.01.07
Brunildo? – espantou-se Malu.
- Sim. Por que?
- Desculpe, mas é que nunca vi um nome como o seu.
- Coisa de família, sabe. O nome da minha mãe é Bruna e,
do meu pai é Hildo, então resolveram juntar os dois nomes num só,
e aí saiu Bunildo. Interessante não é?
- Interessante mesmo...
- Veja meu RG para não dizer que estou mentindo.
Malu pegou o RG e constatou ser esse mesmo o nome dele.
Coitado, pensou, um rapaz atraente, bonito, e com esse nome.
- Escute.
- Sim?
- Quer me visitar onde trabalho?
- Uhm, seria bom.
- Mas há uma coisa.
- O que?
- Não sou garçom?
- Não é? Calculei que fosse.
- Por causa do uniforme?
- Sim?
- Não, não sou garçom, sou chefe de cozinha.
- O que?
- É, chefe de cozinha. Eu que preparo a comida do restaurante, gerencio
a cozinha toda.
- Então você não irá me servir?
- Não vou e nem você quereria.
- Por que?
- O restaurante é de luxo e os pratos são caros.
- Então...
- Eu te levo para conhecer a cozinha e me ver trabalhando e lá mesmo a
gente almoça ou janta. O que acha?
- Gostei.
- Qual o melhor dia para você?
- Todos os dias, desde que me avise com antecedência.
- Ah! tem alguém...
- Não tenho ninguém, não. É que pode surgir compromisso
que não poderei adiar.
- Tudo bem. Esquece, estava brincando, não tenho direito nenhum de me
impor.
- Acho bom mesmo. – Malu sorriu contente.
- Eu te telefono, está bem?
- Estarei esperando. – disse sem acreditar muito que ele fosse lhe telefonar.
Despediram-se. Cada um tomou o caminho do seu destino tendo no peito a chama
da esperança a revigorar o espírito aventureiro.
03.01.07
Como prometido, Brunildo telefonou. Distraída, se sobressaltou ao ouvir
a campainha do telefone. Não pensava em Brunildo. Esquecera-se do combinado.
Atendeu ao telefone com uma certa ansiedade que não lhe era característica.
- Sim?
- Malu?
- Sim.
- Brunildo.
- Sei, como está?
- Bem e você?
- Bem também.
- Isso é muito bom.
- Você acha?
- Acho.
- Olha que tal jantarmos hoje?
- Por mim tudo bem.
- Às sete horas te pego, certo?
- Combinado.
Da mesinha que ele lhe reservou, Malu observava o vai e vem frenético
da cozinha. Brunildo comandava como regente erguendo sua batuta, ora pedindo
com delicadeza, ora exigindo sem antes saber a causa do por que exigia. Malu
riu. Lembrou de uma peça teatral que assistira há muito tempo chamada
A Cozinha. Eram mais ou menos trinta atores em cena. E se não estava enganada,
Juca de Oliveira, personagem principal, era o chefe da cozinha. Como agora Brunildo.
Só que havia uma diferença grande e peculiar entre Juca de Oliveira
e Brunildo. Juca interpretava um personagem, não era ele; por outro lado,
Brunildo podia até estar encenando para ela, porém aos olhos de
Malu, Brunildo estava interpretando ele mesmo, personagem real, de olhos verdes,
ombros largos, gestos decididos, estatura mediana, cabelos encaracolados encobertos
pela touca de cozinheiro. Malu se encantava. Volta e meia, Brunildo arranjava
um tempinho. Sentava ao seu lado e, nesses momentos, só tinha olhos para
ela, dirigindo-lhe frases carinhosas e cordiais. Quando interrompido, pedia licença,
e corria verificar, às vezes um deslize de alguns dos garçons,
ou mesmo de seus ajudantes, ou algo que faltava complementar em algum prato.
Mas fazia isso tudo com dedicação, sem alterar a voz, porém
impondo sem que nenhum dos seus comandados se sentissem humilhados. Havia um
entendimento entre eles que não precisava esclarecimentos. Brunildo sabia
se impor e, seus empregados, entendiam o que precisavam fazer. Assim a cozinha
funcionava maravilhosamente.
04.01.07
O caroço de azeitona rodopiou no ar e caiu bem no decote de Malu que
gritou assustada. Brunildo, do outro lado da mesa riu, não esperava acertar
em cheio.
- Cretino, isso é coisa que se faça – retrucou Malu tentando
tirar o caroço de dentro do sutiã.
Brunildo ria e se preparava para jogar outro caroço, quando foi acertado
em cheio, no rosto, por uma rodela de pepino.
- Ah! é guerra que você quer?
Pegou a saladeira e despejou na cabeça de Malu que, por não esperar
tal reação, tremeu toda ao sentir na pele a salada percorrendo
sua pele tornando-se avinagrada.
- Uhm, que delícia, agora dá gosto comer essa salada – falou
Brunildo jogando a saladeira para o alto que, ao cair no chão, se espatifou
em mil pedaços.
- Ah! minha saladeira... – gritou Malu.
Mas já era tarde. Brunildo postado atrás da cadeira de Malu, começou
a beijar e lamber ao mesmo tempo, a salada, ou o que ficou em Malu. O gosto de
vinagre e sal e óleo foram temperando aos poucos seus movimentos lentos,
proporcionando dessa maneira prazer aos dois.
Malu tentou reagir, sair daquela situação avinagrada, porém,
acabou se entregando e, sem que Brunildo percebesse, pegou o pote de saladas
de frutas e despejou todo em sua cabeça.
Brunildo sentindo o gelado das frutas junto com o vinho, se arrepiou todo, e
no entanto, não perdeu a calma, continuou nos gestos precisos e suaves
a envolver seus corpos.
Com cuidado, tirou o short e a camisa de Malu, com uma folha de alface esfregou
na pela aveludada da amante, começando pelos seios que, excitados, temiam
ao sentir a folha raspando seus bicos.
Chegando ao umbigo, Brunildo pegou um gomo de laranja e espremeu para depois
sugar todo o liquido que ali fora depositado. Malu excitada, úmida de
prazer, tirou a calcinha, se ofereceu àquele banquete de salada pronta
para ser devorada com gosto. Porém, Brunildo ajeitou as folhas, o pepino,
o palmito mais a laranja, o mamão, a maçã e o abacate, entre
as pernas de Malu.
- Não se mexa, fique com a perna fechada.
Assim que tudo estava ajeitado, temperou com sal, óleo e vinagre, mexendo
um pouco. Depois, num processo lento, tirou as calças, a cueca, e deitou
por cima colocando seu sexo no meio da salada que Malu ofertava. Assim ficaram
por vários momentos num vai e vem devagar, bem lento a ponto de não
agüentarem mais.
Nesse momento, Brunildo saiu de cima dela e se ajoelhou ao seu lado. E, literalmente,
começou a comer a salada afrodisíaca, provocando prazer adoidado
em Malu. Saboreou com gosto até que apareceu a mata escura da gruta onde
com sua brava espada a penetrou por várias vezes.
Cansada, porém satisfeita, Malu virou-se para Brunildo e o beijou longamente
num sinal de agradecimento. Brunildo por seu lado, também satisfeito,
sentiu uma quentura amorosamente no beijo de Malu, o qual procurou não
demonstrar, pois estava se apaixonando.
Abraçados, cansados, num sono leve e suave não viram o sol expulsando
as sombras, num beijo quente em seus corpos deitados no chão da cozinha.
09.01.07
A música fazia com que seus dedos pressionassem as teclas da carne,
levando-a a lugares onde o desejo foi um ponto forte concentrado e magnético.
Foram momentos que não sairiam mais de sua mente. Por isso, atento ao
compasso da melodia, sorvendo bem devagar o uísque com gelo, estirada
na paz, fez com que se sentisse privilegiada, porém tinha uma pequena
noção que isso seria por pouco tempo. Aquela noite dormiu o sono
dos justos, pensou.
Na manhã seguinte, atendendo ao terrível som do rádio relógio,
Malu se levantou. Foi até o banheiro para as necessidades matinais, escovou
os dentes, penteou os cabelos, e, se achou bonita. Escolheu um traje preto que
lhe cabia bem, sempre gostou do discreto, mesmo que às vezes a ocasião
não fosse apropriada.
Continuava ainda com a sensação dos últimos momentos. Malu
trazia, como mapa impresso na pele, todos os instantes sexuais da sua vida. Cada
pedaço do seu tecido vibrava as ocasiões intensas em que fora,
por momento, realizada.
No entanto, algo lhe dizia que havia ainda, por mais que quisesse, um pedaço
do seu ser que sempre estaria reclamando sua atenção. Ela não
podia deixar que essa parte sua estivesse sempre reclamando, tinha que satisfazê-la
mesmo que, com isso, se tornasse sua ruína. Malu deu de ombros.
Olhou o relógio, merda! Estou atrasada, gritou o seu eu interior. Numa
rapidez ajeitou a saia, pegou a meia fina, sentou na cama, ergueu o pé sobre
o joelho direito quando, sua unha comprida, fez um tremendo furo na meia. Puta
que pariu, berrou em voz alta. O que faço? Resolveu, calçou o sapato
sem a meia, pegou as chaves da casa e saiu apressada.
No ponto, enquanto esperava o ônibus, reconheceu, decididamente hoje estou
atrasada.
10.01.07
Malu mais uma vez contava com o atraso. Não o atraso do metrô,
mas dela que, quase sempre, custava a se levantar. O que não queria dizer
que isso a deixasse de mau humor, não, porque por outro lado poderia lhe
acontecer mil coisas. No aperto costumeiro das manhãs, Malu procurou ficar
numa posição sem ser incomodada e muito menos incomodar os outros.
Na sua frente estava um Zé ninguém grandão, parecendo mais
armário do que propriamente gente, que a deixava numa situação
desfavorável. Devido a isso, não notou o rapaz ao lado dela observando-a
atentamente. Fixou seus olhos nos olhos dele provocando assim um ligeiro desconforto
no pobre do rapaz que foi obrigado a desviar os olhos.
Tentando se esquivar do armário que a empurrava para traz, por momentos
Malu esquecera do rapaz. Quando deu por si, sentiu como se ele estivesse cheirando
seus cabelos pretos (ou morenos, não lembro?), ainda bem que ela tem o
costume de perfumá-los. Nisso o metrô para entre as estações
por mais de quinze minutos, o que deixa, tanto ela como o pessoal, meio irritados.
Quando o metrô começou a se movimentar e, talvez vendo que ela fosse
descer na próxima estação, o que não estava ele errado,
disse-lhe ao ouvido:
- Daria tudo para sentir esse seu perfume novamente.
Ao que ela sem pestanejar respondeu:
- Tudo mesmo?
Ele riu e disse meigamente:
- Depende do seu tudo, e ao mesmo tempo colocou nas mãos de Malu um cartão:
- Me liga e verá...
Descendo no seu destino, Malu ficou por um bom tempo vendo-o desaparecer nos
umbrais escuro do metrô com o cartão dele nas mãos. Por fim,
guardou-o na bolsa e se dirigiu para a escada rolante.
Confortavelmente sentada em frente ao computador, Malu pensava, por fim, retirou
o cartão da bolsa, abriu o Outlook e escreveu:
- Você sentiu o meu perfume, mas não pude sentir o seu, e clicou
em enviar.
Levou quase dois dias para ele responder:
- Tenho muito mais que um perfume para você sentir.
11.01.07
Dois dias levou ele para responder. Dois dias em que Malu ficou imaginando
coisas que, sabia, talvez não aconteceriam como foram imaginadas. Mas
só de ficar imaginando já lhe proporcionava um prazer imenso. Achava
até que se prolongasse mais um pouco, talvez uma semana, quando se encontrassem
seria espetacular. Porém, foram apenas dois dias. E o que ele responderá confirmava
a expectativa dela:
- Tenho muito mais que um perfume para você sentir.
- Não sei se devo, nada sei de você.
- Te garanto que não vai se surpreender e, lhe digo mais, vai gostar.
- Não sei não, fiquei com um certo receio.
- Mas do jeito que você entrou dentro de mim com seu olhar, é difícil
de acreditar, não acha?
- E qual a sua intenção?
- Te beijar, te cheirar e se deixar... transar loucamente com você.
- Nossa! você é direto.
- Você perguntou...
- Onde você mora?
- Isso é o menos importante, não acha?
- Concordo, mas para gente apenas se situar no espaço. Que tal um chopinho
no final do dia?
- Não bebo.
- Eu bebo o chope por você.
- Está bem... onde nos encontramos?
- No café que tem no térreo, como nos conhecemos não precisa
dizer como está... e depois a gente vai para onde você quiser, certo?
- Tem estacionamento? Estou de carro.
- No subsolo.
- Então te vejo mais tarde, beijos virtuais, porque mais tarde vou te
entupir dos beijos reais.
- Ua, que delicia, fiquei com medo.
- Não tenha não, eu não mordo dolorido.
- Até mais tarde então.
16.01.07
Malu ansiosa ficou pedindo para que o dia terminasse logo. No final da tarde,
indo para o café, ele (não sei, mas dei nome para ele?) já estava
lá. Foi direto ao encontro de Malu, e sem mais e sem menos, laçou
um formidável beijo que a deixou suspensa por vários segundos.
Sininhos badalaram em seu ouvido.
- Uhm, perfume... muito bom – falou seu intimo afoito.
Dando o braço para Malu, foram direto ao estacionamento. Entraram no carro
e partiram para o apartamento dele. Pouco falaram durante o trajeto, apenas um
momento em que ele pegou a mão dela e colocou-a no meio das suas pernas.
Nesse momento, Malu estremeceu, ele já estava preparado, rígido
e pronto.
- Você mexeu com a minha imaginação não sabe quanto.
Ela sorriu meio constrangida, sem saber o que dizer. Como dizia aquele velho
ditado:
- “Quem saia na chuva é para se molhar”.
Chegando ao apartamento, cumprimentou o ascensorista que olhou para ela pelo
canto do olho, talvez imaginando o que se sucederia.
Ele morava num apartamento grande, bonito, elegantemente decorado que deixou
Malu extasiada, de boca aberta pela beleza do ambiente. Havia uma certa bagunça
que não atrapalhava o luxo do apartamento.
Nem bem tinham entrado, fechou a porta, e começou a beijá-la ao
mesmo tempo, tirava a camisa, a calça, a cueca e ficou nu, teso pronto.
Deixou Malu vestida, e num afoitamento, colocou a camisinha, beijando-a, acarinhando
suas costas de cima em baixo, erguendo a saia, arrancou a calcinha, e a penetrou
jorrando num segundo dentro dela. Malu ficou decepcionada. Não era isso
que esperava. Recompondo-se, ele disse:
- Desculpe, precisava fazer isso primeiro, mas depois demorarei mais cuidando
de você como deve e como você merece.
18.01.07
Malu acordou sobressaltada. Tremia e suava sem saber o porque. Ao sair, tinha
um gato preto morto bem em frente do portão. Benzeu-se três vezes
sarava mangalô que o diabo te pegue. Era o terceiro só nesse mês
que aparecia morto. Alguém que não gosta de animal, pensou. Hoje
o dia não seria bom. Apesar de não acreditar nessas coisas, fez
o sinal da cruz ao subir no ônibus. O merda do motorista apressado, acelerou
quase a derrubando por cima do senhor sentado no primeiro banco.
- Que merda!
No metrô, devido a lentidão por causa de uma avaria técnica
numa das estações, foi comprimida entre um senhor de aspecto macabro
e de uma senhora que mais parecia Macbeth em dia de funeral. No entanto, um pouco
distante dela, encontrou dois pares de olhos que não se despregavam dela.
Não gostava dessa situação, pois apenas conseguia ver os
olhos, queria ver o conjunto todo do rosto, principalmente o nariz e a boca.
Achava essas duas partes do rosto sensual e importante.
Na estação seguinte, por não sei o que, se milagre ou que
fosse, o senhor e a senhora desceram, o que, entre ela e os dois pares de olhos,
a distancia ficou menor. Como sempre fazia, olhou bem dentro dos olhos do rapaz
que, por segundos, sustentou o olhar, esboçando uma leve comichão
no canto esquerdo da sua boca, revelando um sorriso bonito. Malu se postou a
espera, talvez de alguma coisa, de um convite, porém, o rapaz passou por
ela e colocou em sua mão um papel e, rapidamente desceu do metrô.
Da plataforma, gesticulou dando a entender para que ela lesse o papel.
Com a angustia e a duvida ativando a curiosidade, seus dedos trêmulos,
devagar desdobrou o papel. E qual não foi à surpresa ao ler o que
estava escrito:
- Esse é um endereço para você se cadastrar e escrever para
a lista de Piadas e Risos, espero você lá.
19.01.07
Piadas e Risos! Que sacanagem era essa, pensou colocando o papel na bolsa.
Desceu do metrô na estação do seu destino e não pensou
mais no assunto. No entanto ao chegar em casa, precisamente ao ligar o micro,
lembrou do rapaz. Acessou o Yahoo, procurou o grupo de piadas e risos e, se cadastrou.
Logo em seguida começou a receber uma enxurrada de mensagens. Algumas
eram piadinhas às vezes infames, outras satíricas, charges das
mais variadas de estilos, a maioria políticas logicamente, e poucas de
fatos engraçados; a lista se prestava somente para isso mesmo. E de piada
em piada, descobriu o rapaz do metrô. Ali na lista ele era chamado de Ari
Toledo, pois era o que mais conhecia piada, qualquer tema que fosse jogado na
lista, sabia pelo menos de uma.
Depois de quase uma semana, Malu se identificou:
- Ola, Ari, tudo bem?
A partir dessa primeira apresentação, começaram a se escreverem
mutuamente, eram os que mais escreviam, depois o assunto começou a ficar
picante, mais individual, passaram a se comunicar em pvt. Foi dessa maneira esdrúxula
que Malu passou a conhecer Andi. E seguiram se conversando, trocando e-mails
ora falando de diversos assuntos, ora de coisas banais, e ora da vida deles.
Chegaram a conclusão que havia muitas afinidades entre eles, afinidades
que deveriam levar em conta, caso se aprofundassem a ponto de criarem uma seqüência
de atos que levariam os dois ao namoro aventureiro. Malu, ciente disso, se empolgando
com o rapaz, pisava com cuidado no terreno ainda praticamente desconhecido. Andi,
como se declarou, viúvo, tinha uma filha de 12 anos vivendo com a avó,
procurava mais uma aventura do que propriamente um amor, ainda guardava da esposa
dolorosas recordações, e, acabou se declarando:
- Preciso de um apoio, me desequilibrei totalmente com a morte da esposa, disse
num repente como se tirasse um peso dos ombros.
Malu se sensibilizou com a história dele e, com pena ou carência,
pela luta que enfrentava, mais a responsabilidade em criar a filha, provocou
nela um sentimento maternal obsessivo em cuidar dele. Por mais de dois meses
e meio, criaram uma amizade virtual, que logo se estendeu ao telefone, aos torpedos,
só faltava marcarem um encontro.
22.01.07
Faltava um encontro e, este surgiu numa casualidade entre um assunto e outro,
quando se revelou entre eles, a possibilidade de realizarem o que muito vinham
desejando. Apesar de Malu morar numa região distante, quase que praticamente
do outro lado da cidade, foi com vergonhosa ansiedade, marcaram o dia e hora.
Logicamente Malu nunca prevenira o que poderia acontecer, se fosse prevenida
ou, se fosse possível prever o acontecido antes dele acontecer, claro
que ela teria recusado, mas, enfim, como dizia sua mãe: saiu na chuva
tem que se molhar. E ela saia para se molhar, não tinha medo.
O encontro estava marcado para ser numas das estações do metrô,
tanto ela como ele, combinaram ir de azul. Malu de saia, blusa e até bolsa
e sapato de azul, ele de camisa esporte e calça jeans, não tinham
como errar. Porém por uma fração do tempo ingrato, Malu
ficou plantada na estação por quase meia hora, e o mais engraçado,
o que na hora nem prestou atenção, todos que passaram por ela estavam
de azul, tanto homem como mulher. Será que combinaram, será que é algum
protesto e não estou sabendo? – perguntou intrigada com a coincidência.
Não tinham o que errar, disse para si mesma, além do azul que vestimos,
ele é desproporcionalmente alto. Perto dele Malu era a formiguinha enquanto
ele era o Jotalhão. Porém, mesmo com essa diferença física,
bateu entre eles uma química irresistível.
24.01.07
Malu percebia que ele ficava cada vez mais excitado. Não querendo perder
nada, sugeriu que tomassem o último chope e fossem embora. Mesmo sendo
cedo, ele teria que levá-la para casa. Assim sendo, tomaram o último
e, aceitando uma sugestão dela, pegaram uma estrada onde tinha vários
motéis. Tanto é que a estrada era conhecida como a Estrada dos
motéis, isso entre os assíduos freqüentadores. Escolheram
um com chalés, bem agradável, com hidro e outras mordomias.
Os beijos que tinham começado no bar, ao entrarem no chalé, tornaram-se
mais quentes, mais sensuais, ousados até. Em segundos Malu se despiu,
não deixou que ele a despisse. Ajudando-o a se despir, ele disse:
- Há um problema.
Malu comprimiu a sobrancelha preocupada.
- Qual o problema.
- Bem... Não sei, é que...
- O que não sabe e o que é?
- Bom, tenho o pênis torto – disse de sopetão sem tomar fôlego.
- Ah! isso é natural, a maioria dos homens tem.
- Acontece que o meu é bem diferente.
Malu não ligou, continuou a despi-lo.
- O meu é bem diferente.
Já o tinha despido totalmente, faltando apenas à cueca um pouco
fora do normal, meio grande, meio samba canção, com um volume desproporcional
que a deixou preocupada.
Osvaldo
Pastorelli: Poeta
e artista plástico, nascido em Rio Claro, no interior de São Paulo,
hoje vive na Capital, onde se casou e nasceu sua maior obra-prima: Caroline.
Nos anos 80 participou do concurso da Biblioteca Afonso Schimitt, sendo premiado
em segundo lugar com a poema "Balada da Forma". A partir daí nunca
mais parou de escrever. Desde 1998 convive com a poesia em algumas listas de
discussão da Internet. Participou de várias antologias, e atualmente
com mais dois amigos poetas: Carlos Eduardo Savasini e A. Bittar, vem coordenando “Rascunhos
Poéticos”, aos sábados na Casa das Rosas – Espaço
Haroldo Campos; tem contos e crônicas publicado no site Anjos
de Prata e
no Recanto das
Letras e um Fotoblog
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