A Dama do Metrô
01.02.07
Com uma certa ansiedade, o que não lhe era nada característico,
Malu descia a rua com o corpo inclinado para traz devido o declive da calçada
irregular. O endereço era aquele mesmo, não tinha se enganado.
Talvez estivesse um pouco adiantada, o que não queria dizer que estivesse
aflita, mas apenas correia o perigo em ter curiosidade em saber como era o lugar.
Lembrava, dois dias atrás do convite que recebera do rapaz no metrô:
- Olha se você for, sei que irá gostar.
Loiro, com uma barbicha pequena dentro de um sorriso largo, pronunciava as palavras
suave e confiante. O que lhe deu a certeza de que não se arrependeria.
Ele estava sentado olhando-a desde o instante em que ela o percebera. E, assim
que o lugar ao seu lado ficou vago, num gesto firme acenou para que ela sentasse
ao seu lado. Sem pestanejar aceitou o convite. Nem bem tinha sentado ao lado
dele, Ronildo, esse era o nome dele, Ronildo se mostrou o dono da verdade como
se já tivessem se conhecido de longa data. Suas coxas grossas, que ela
pode sentir através da calça fina de brim, roçavam despudoradamente
na sua. Como desceriam na mesma estação, criaram uma certa camaradagem
agradável. E, durante a conversa, sem preâmbulo nenhum, Ronildo
lançou o convite:
- Se você é daquelas que gostam de couro e seus apetrechos, convido-a
para a próxima reunião do sadismo e masoquismo. O que acha?
Malu, a principio se chocou com o convite, dito assim, sem mais e nem menos,
sem que tivessem entrado na conversa propriamente dita. Claro, estavam conversando
abertamente sobre tudo, inclusive sobre sexualidade, não lembrava se havia
lhe dito algo sobre sadismo e masoquismo. No fundo, depois que se despediram,
chegou à conclusão que Ronildo possuía uma certa previsão
sobre as pessoas.
E, durante o percurso, descendo do micro ônibus em frente a sua casa, achou
a idéia interessante. Prometeu-se no dia seguinte ligar para Ronildo confirmando
sua participação na festa de sadismo e masoquismo.
05.02.07
Ela entrou no toalete. Quinze minutos depois saiu uma outra mulher, completamente
diferente. A que entrou trajava uma roupa sofisticada, saia preta, uma blusa
branca quase transparente, com brincos enormes, um penteado chique, sapato de
salto alto; e a que saiu, foi uma mulher vestindo preto dos pés a cabeça,
calça justa delineando os contornos, blusa exígua mais mostrando
do que cobrindo, não usava brincos, mas pearcings nas duas orelhas e nariz,
e em vez de bolsa, trazia na mão uma coleira e um chicote, os olhos pintados
bem escuros, batom de um roxo tétrico e os sapatos chamados de plataforma,
o que a deixava maior do que já era. Sentou em uma mesa ao lado de Malu.
Malu observava o movimento do bar... Não sabia como definir, se bar,
lanchonete, boate ou o que. Quem entrava deparava com um bar, mais adiante se
parecia com lanchonete com seus banquinhos e tudo mais, e mais para o fundo uma
boate onde desfilavam, sob uma luz opaca, um mundo underground que nunca pensou
existir. A princípio quando passou pelo o que parecia uma lanchonete,
um leão de chácara, uma sujeito de ombros largos, alto de mais
ou menos um metro e noventa, vestido de preto, e com um olhar duro de quem não
quer confusão, barrou Malu assim que ela ultrapassou a divisa da lanchonete
com a boate.
- Um momento. A senha.
- A senha?
- É a senha.
- Pô, que mancada, o Ronildo não me falou de senha nenhuma.
- Ronildo?
- Sim.
- Espere um pouco.
Enquanto esperava, o leão de chácara folheou uma prancheta virando
várias folhas.
- Está certo, pode entrar.
- Obrigada.
Assim que seus olhos caíram dentro daquele ambiente meio sombrio, com
uma luz opaca, piscaram varias vezes até acostumarem. Procurou uma mesa
que ficasse meio longe da pista, mas que pudesse visualizar todo o movimento.
Já fazia mais de quinze minutos que estava ali, quando a jovem superproduzida
parecendo formando no seu baile, entrou no toalete e, quinze minutos depois saiu
parecendo mais dark do que o próprio Zé do Caixão. Nesse
momento percebeu o movimento agitado de vai e vem dos mais variados personagens
08.02.07
Malu tinha remexido em quase todas as roupas existentes naquele sórdido
quarto. Abriu o guarda-roupa, vasculhou o seu interior e não viu nada
que lhe interessasse. Já estava se dirigindo para a porta quando ouviu
uma voz esganiçada berrando.
- Lá vem àquela bichinha escrota – pensou.
Nisso a porta foi aberta com estrondo e entra Ronildo esbravejando impropérios
dirigidos a alguém que Malu não conseguia ver. Assim que a viu,
mudou o tom de voz, e falou no tom natural:
- Desculpe, Malu a gritaria, mas com essa cambada de veados que não sabem
fazer nada só funciona aos gritos.
Beijou-a nos lábios e continuou a falar.
- A vagabunda da Nilsinha te trouxe aqui? Aquele incompetente, não sei
por que a aturo, só quer saber de foder os outros e bouquet, nada mais.
Vamos, venha comigo que lhe arrumo algo decente.
E sem esperar alguma reação por parte dela, pegou-a pela mão
e saíram do quarto.
- Esse lugar é despejo dos trouxas, jogam as roupas que não querem
mais, depois mando lavá-las e dou aos pobres.
O corredor estava vazio, passaram por três portas e na quarta, entraram.
- Pronto aqui está melhor.
Realmente, Malu viu um quarto arrumado, limpo e bonito. Desorientada ficou parada
sem saber o que fazer, se sentava ou dava meia volta e sai daquele lugar. Ronildo
percebendo o embaraço dela, abraço-a arrastando-a até o
pequeno sofá que estava no canto esquerdo do quarto. Era o lugar mais
iluminado com um abajur grande todo enfeitado de vermelho, roxo e cor-de-rosa.
- Você não está entendendo nada.
- Infelizmente ou felizmente estou mesmo. Afinal onde estamos e quem é você?
- Bom eu sou o Ronildo que você conheceu no metrô.
- Não parece não com esse traje dark de bicha de segunda categoria.
- Deixe-me explicar – disse sentando ao lado dela.
- Acho bom mesmo.
- Bom o Ronildo que você conheceu é um pequeno empresário
que durante a semana trabalha duro para que sua empresa lhe renda algum dinheiro.
Não quero muito não, o suficiente para viver e me divertir. E graças
a Deus, se ele realmente existe, a empresa está indo muito bem, dando-me
condições de fazer essa brincadeira uma vez por mês.
- Quer dizer que uma vez por mês você se transforma num aparato desmunhecado
de uma figura horrorosa?
- Isso mesmo, mas não vamos esculhambar, né.
- Sou convidada para uma festa e o que encontro é um bando de desmiolado
e repugnante.
- Olha aqui está o que guardei para você. Vista e vamos nos divertir
que durante a noite a gente vai conversando.
Malu abriu o pacote que ele lhe dera. O que viu foi um belo traje preto, não
de couro, apenas em algumas partes do vestido e que se via umas tiras de coura,
meio longo, dando um ar de chique dark.
09.02.07
Olhou-se no espelho. O resultado até que não estava de todo
ruim. Precisava apenas acentuar a maquiagem deixando-a um pouco mais pesada.
Foi o que ela fez. Entraram na pista de dança de braço dados. Dançaram
quase a noite toda entre os mais variados e esquisitos tipos que ela nunca pensaria
ver. Houve um momento em que precisou ir ao toalete. Para tanto tinha que passar
por um corredor sombrio, mais escuro que a pista de dança. O que viu constatou,
ela, perante aquele pessoal era uma santa, não podia ser acusada de pecadora.
Havia pelo corredor todo, casais na maior naturalidade abraçando, beijando,
homem com homem, mulher com mulher, mulher com homem e homem com mulher e tudo
o mais. Ao chegar a porta do toalete, precisou pular por cima de duas mulheres
abraçadas, rolando pelo chão, praticamente nuas.
Ao voltar não encontrou Ronildo onde o deixara. Foi encontrá-lo
bebendo no balcão abraçado ao um rapaz que ostensivamente o acariciava.
Malu sentia-se enjoada de tudo aquilo, a princípio viu como interesse,
com curiosidade quase carnal pela diversidade de tipos e pelos modos de agir
e de se vestir. Mas isso tudo foi tomando um certo pavor em suas entranhas que,
revelou não querer mais isso, que não era o que esperava. E que,
até agora, Ronildo se demonstrou apenas um idiota que se entregava aos
instintos da sexualidade perniciosa.
Por isso, com a maior naturalidade, sem se importar com o rapaz que o acariciava,
enfiou o braço no braço dele dizendo:
- Por favor, me leve daqui. Vamos para um lugar onde possamos ficar a sós
por uns momentos.
Ronildo se desvencilhou do rapaz, dando-lhe um beijo.
- Vai querido, depois conversamos.
Encarando Malu, perguntou quase num tom irritado, mas que conseguiu controlar.
- O que foi? Não está se divertindo?
- Estou, sim.
- Então?...
- É que esperava outra coisa.
- Que eu fosse machão e não afeminado como me vê, não é?
- Bem um pouco é isso também.
- Porque você não deixa seu lado masculino aflorar?
- Não vem com esse papo freudiano, ou seja o que for por cima de mim que
não é hora e nem momento apropriado para se encarar filosofia barata.
- Uhm, estou vendo que está zangada.
- Zangada não, frustrada e chateada.
- Você é uma burguesa de classe média que não se sabe
se soltar Oh! mina se libera, deixe sua fantasia lhe dominar, curte a noite como
se fosse a última noite de sua vida. Vou por você num táxi
e depois te telefone, está bem?
- Acho melhor, mesmo.
12.02.07
Malu desligou o telefone chateada. Encolheu-se dentro do mal estar que estava
sentindo. Colocou a mão entre as pernas nuas raspando nas fibras da calcinha
e deitou a cabeça no braço da poltrona. Procurou se recolher na
exaustão ocorrida nos últimos dias. Olhou para o teto da sala,
fixou o olhar num ponto, começou a contar lentamente ao compasso da respiração.
Queria relaxar totalmente, ficar solta, livre de qualquer empecilho. Fechou os
olhos e conduziu os pensamentos em sua atitude.
Eram válidas? Sim, eram, e porque não? Válidas porque
satisfazia seu ego sexual ao mesmo tempo em que a deixava aberta a novos conceitos
e aventuras. Mas tal atitude a engrandecia? Sim e não. Em certos momentos
sim, e outros não. Como o caso Ronildo. Tudo bem, que ela seja liberal
a ponto de aceitar experiências que nunca pensara aceitar. Contudo, Ronildo
foi deselegante por não satisfazê-la como queria. No entanto não
percebia que, querendo intensamente a satisfação própria,
nunca conseguiria ser completamente satisfeita. Tinha que, primeiramente, se
regalar com os pequenos detalhes que lhe eram sorvidos, como conta gotas, do
que ingerir de uma vez. Satisfazendo é que seria satisfeita.
Talvez Ronildo ainda pudesse conceber-lhe em seu interior alguma valia! Talvez,
pensou ao sentir a quentura da sua mão bolinando suas coxas. No afago
da tarde morna, por causa da chuva, a trepidação pulsando sua carne,
levo-a para mundos imagináveis a ponto de rasgar a lucidez. Num suspiro
louco, afrouxou a carne sobre os ossos, se entregando ao prazer dos seus dedos
malignamente prazerosos.
Instante depois soltou uma aí profunda, manchada de suor que a deixou
languidamente esbaforida e satisfeita, com as pernas abertas, e um sorriso confortador
nos lábios.
Logo em seguida adormeceu satisfeita sem pensar em mais nada.
14.02.07
Malu olhou pela janela. O dia parecia ser o mesmo de sempre. Pacato naquela
parte do dia em que ela, paciente, esperava o que fazer. Olhou por cima o ombro.
Seu criador absorto numa contemplativa introspecção, não
percebia o tédio em que ela se encontrava.
- Droga! Esse merda precisa de uma injeção de inspiração.
Acho que vou acabar morrendo neste mísero quarto que nem sei se é de
hotel ou o meu próprio. O pior que sendo eu um personagem criado pela
imaginação dele, não poderei sair daqui e lhe dar uns cascudos
no pé da orelha. Que droga, ser personagem de escritor medíocre é foda.
Mas tudo bem vou apreciar essa paisagem falsa que ele colocou no cenário.
Assim Malu apoio seus cotovelos no peitoril da janela do décimo segundo
andar, e se interiorizou na calma do teclado imóvel onde, os dedos longos
e feios do seu criador, pousava a espera de inspiração.
Nisso, ouviu a campainha da porta.
- Quem será? – perguntou olhando para cima como se interrogasse
o seu criador – Que merda, que você está aprontando comigo?
Receosa abriu a porta devagar o suficiente para ver quem era.
- Pois não?
- Aqui é que mora a Malu, A Dama do metrô.
- Bom, eu sou a Malu, mas desconhecia ser A Dama do metrô.
- É que me mandaram entregar isso para a senhora.
- Senhora não, senhorita faz favor.
- Desculpe, senhorita.
Malu olhou bem nos olhos do rapaz, isto é, o que via do rapaz.
- Ah! Porque não é o entregador de pizza – falou lembrando
do moreno entregador de pizza – é pena que não gosto muito
de pizza, não é?
Como o rapaz desconhecia do que se tratava, permaneceu calado tendo na cara a
feição do tédio em que se encontrava a sua vida.
- Não quer entrar?
- Obrigado.
- Um minuto.
Malu depois que o rapaz sentou no sofá amarfanhado de seus contornos,
se afastou. Depositou o pacote em cima da mesa.
- Não quer tomar alguma coisa?
- O que a senhorita tem para me oferecer?
Eita, o rapaz é afoito, não lhe deram educação, não? – pensou
olhando-o bem nos olhos.
- Bem o que eu tenho...
15.02.07
- Bem o que eu tenho... Você já conseguiu neste momento – pensou
olhando para o teto enquanto fumava o seu cigarro.
Deitado ao lado dela, nu, todo satisfeito, o rapaz dormia um sono tranqüilo
abraçado a ela. Malu pensou que apesar da idade do rapaz, fosse ele afoito,
como se fosse pela primeira vez ao pote beber água, mas se surpreendeu
pela tranqüilidade dos movimentos surpreendentemente carinhosos.
- O meu nome...
- Não, não diga o seu nome, não vamos estragar nosso prazer,
pois não sabendo o teu nome não corremos perigo de estarmos transando
com um conhecido, entende?
- Não, não entendo.
- Bom deixa pra lá, pois essa minha teoria está furada, pois você já sabe
o meu nome.
- Sim, mas ele pode ser falso, nome de guerra.
- O meu se manca, quem tem nome de guerra é prostituta, eu não
sou prostituta.
- Tudo bem, não se grile, vem aqui sentir meus beijos ansiosos para conhecer
esse teu corpo formoso e gostoso.
E a envolve-a num longo e quente abraço. Um cansaço dominou sua
mente. Sentia-se velha, precisava parar com as aventuras inconsequëntes,
dar um tempo ao tempo. Levantou-se, no banheiro se lavou, trocou de roupa. O
rapaz ainda dormia despreocupado.
- O amoreco, levante, vamos.
- O que foi?
- Levante, saia, vá embora, preciso trabalhar.
Lentamente, o rapaz catou as roupas e entrou no banheiro. Ouviu o barulho do
chuveiro e uma voz forte cantando alegremente.
- Gente jovem está sempre contente – falou para o seu reflexo no
espelho.
Minutos depois, o rapaz todo refrescado sai do banheiro.
- E aí, gostosa, nos veremos novamente?
- Que gostosa que nada, vá embora, se eu sentir saudades de você sei
aonde procurá-lo, agora vai embora, por favor.
Empurrou o rapaz para fora do apartamento. Fechou a porta e se jogou no sofá.
Acendeu outro cigarro, jogou a cabeça para trás, fechou os olhos
e desejou ficar imóvel para o resto da sua vida.
Fim? Não sei talvez, sim, talvez, não, vamos ver...
Osvaldo
Pastorelli: Poeta
e artista plástico, nascido em Rio Claro, no interior de São Paulo,
hoje vive na Capital, onde se casou e nasceu sua maior obra-prima: Caroline.
Nos anos 80 participou do concurso da Biblioteca Afonso Schimitt, sendo premiado
em segundo lugar com a poema "Balada da Forma". A partir daí nunca
mais parou de escrever. Desde 1998 convive com a poesia em algumas listas de
discussão da Internet. Participou de várias antologias, e atualmente
com mais dois amigos poetas: Carlos Eduardo Savasini e A. Bittar, vem coordenando “Rascunhos
Poéticos”, aos sábados na Casa das Rosas – Espaço
Haroldo Campos; tem contos e crônicas publicado no site Anjos
de Prata e
no Recanto das
Letras e um Fotoblog
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