A Dama do Metrô
21.09.06
Não estava atrasada. Tinha de vantagem umas duas horas mais ou menos,
porém não podia fazer corpo mole, não podia ficar esperando
um metrô vazio, o primeiro que viesse teria que tomar.
A plataforma como
sempre estava cheia. Não teve dificuldade para entrar.
Ficou prensada entre uma moça e um homem grande, barrigudo na sua frente
que a olhou maliciosamente. Não deu pelota para ele.
Na Sé conseguiu
pegar um vazio. Ao seu lado estava um rapaz, de terno e gravata, feições
atraentes, e o que mais chamou sua atenção
foi os lábios, vermelho, parecendo batom. Contraiu os músculos
num pequeno sorrir ao pensar maliciosamente.
“Será que lá é tão
vermelho assim como é os
seus lábios?”
Nisso, sem que percebesse, ficaram um de frente para
outro. Não tinha
como mudar de posição. Sentiu uma forte atração pelo
rapaz. Aproveitando o balanço do trem, se aproximou mais, quase sentia
a respiração quente. Controlou-se juntando sua audácia na
palma da mão fechada, pois ela já estava roçando a braguilha
da calça azul marinho bem passada. Uma quentura subiu por sua espinha.
Não queria se enfiar numa aventura, já tivera muita nessas mesmas
condições. Entre suas amigas ganhara até um apelido por
causa disso: A Dama Do Metrô. Olhou mais uma vez nos olhos azuis do rapaz,
e mentalmente jogou um beijo e desceu na próxima estação.
29.09.06
Estava em pé e cansada, a perna doía. Fazia um calor não
muito quente, era um calor ameno, mas que a deixava inquieta. Olhou para os lados.
Credo, como tem gente feia. O que está acontecendo - perguntou mentalmente
ao perceber um rapaz bocejar mostrando as falhas nos dentes - não há mais
Nisso a moça que estava sentada a sua frente, levantou. Ufa! Graças
a Deus, vou sentar. Porém, notou um olhar pedinte que não teve
como não recusar. Cedeu-o para o senhor que estava ao seu lado. “Obrigada
moça”. “Não tem de quê”, respondeu com
uma pontinha de raiva, que provocou-lhe um sentimento de vergonha.
Se acontecesse alguma coisa para quebrar a monotonia... Mas já estava
quase na metade da viagem e, até agora, nada acontecerá. Que droga!
Sentia-se deprimida, estaria perdendo os encantos, os homens não tinham
mais atração por ela? Também, esses bagulhos...
“Estação Tatuapé!”, berrou a voz dentro do trem.
Abriram-se as portas e uma enxurrada de massa humana adentrou no vagão
empurrando e tropeçando. Exclamações pipocaram aqui e ali
reclamando.
Ela continuou na sua, quieta, estava no corredor, bem no meio do vagão,
portanto não tinha como ser empurrada. Distraída nos pensamentos
não viu que ele se postou atrás dela. Sentiu uma pequena pontada
nas costas, de leve, roçando o excitamento que despertava.
Ele malandro
conquistador, notou a beleza estonteante dela. Obedecendo ao instinto de macho,
começou com o seu joguinho audacioso. Postou o braço
ao longo do corpo como ninguém quer nada, foi se aproximando dela que
pedia carinho. Aproveitou que passavam por suas costas, espremendo-o contra ela,
abriu a mão que roçou a nádega dela.
Ela, para disfarçar
olhou para traz com o intuito de reclamar, mas seus olhos castanhos claros divisaram
uns olhos azuis a ponto de derreterem seu cansaço. Soltou os músculos,
se preparou para o que desse e viesse e, quem sabe...
Sua alma se expandiu aquecendo a carne faminta. Sua pele se eriçou
quando a mão dele invadiu sua privacidade. Uma brisa suave lambeu suas
coxas febricitando a mata úmida regozijando se de prazer. Seu corpo se
amoleceu, uma vertigem dominou seus sentidos. Não estava conseguindo se
dominar. Suas pernas se dobravam lentamente. Estava desmaiando com a quentura
da mão dele em sua pele intima, protegida apenas pela saia de pano fino.
Nisso ouviu a voz dele pedindo...
- Por favor, senhorita, pode me dar licença?
Ahn! Que foi? Olhou para
traz, não viu os olhos azuis e, sim, uns olhos
safados, maliciosos, de óculos fundo de garrafa e sorriso amarelo, cheirando
a café amargo e suor azedo.
Embaraçada, sem entender o que lhe
acontecerá, rapidamente desceu
e, para o seu espanto, estava no final da linha perdida.
Osvaldo
Pastorelli: Poeta
e artista plástico, nascido em Rio Claro, no interior de São Paulo,
hoje vive na Capital, onde se casou e nasceu sua maior obra-prima: Caroline.
Nos anos 80 participou do concurso da Biblioteca Afonso Schimitt, sendo premiado
em segundo lugar com a poema "Balada da Forma". A partir daí nunca
mais parou de escrever. Desde 1998 convive com a poesia em algumas listas de
discussão da Internet. Participou de várias antologias, e atualmente
com mais dois amigos poetas: Carlos Eduardo Savasini e A. Bittar, vem coordenando “Rascunhos
Poéticos”, aos sábados na Casa das Rosas – Espaço
Haroldo Campos; tem contos e crônicas publicado no site Anjos
de Prata e
no Recanto das
Letras e um Fotoblog
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