A Dama do Metrô

03.10.06

Estava conhecendo uma nova sensação. Não poderia dizer se esquisita, não, não era esquisita, mas estranha, algo que ainda não conseguia explicar.
Seu olhar deslizou pelo ambiente. Simples, modesto, próprio para quem mora sozinho. Aparelho de som, cds espalhados, livros empilhados num canto, um pouco de bagunça como é o costume dos solitários.
Acendeu um cigarro. Dobrou a perna e o lençol escorregou deixando a mostra sua coxa grossa, lixa, amorenada. Sorriu ao ver sua posição sexy estampada no espelho da penteadeira.
Sorriu também por estar ali, por passar por essa experiência a qual se propusera, seguindo, ou melhor dizendo, concordando com a teoria de um poeta que lera recentemente. “Todo ser humano tem que passar por tudo e qualquer experiência, seja ela qual for”. Realmente, mas nem todos têm a capacidade mental equilibrada para certas experiências.
Ouvia o barulho da água do chuveiro lavando cheiros e suores impregnado na pele dela, seus cheiros e suores que foram misturados tornando-se parte da longa e louca noite.
Acendeu outro cigarro. Gostava de fumar não pelo prazer de sentir a nicotina, mas pelo prazer de que o cigarro a fazia pensar. E dentro da fumaça do cigarro que espiralando sumia no ar do quarto, lembrou como foi que chegou aqui. Tudo por causa de um toque. Um toque que foi dado no seu dedo ao segurar a barra de ferro do trem.
Como sempre meio atrasada, desceu a plataforma do metrô e entrou sem pensar no primeiro que chegou. A sorte que o metrô não estava abarrotado, conseguira um lugar, mesmo que tivesse de ficar com o braço esticado segurando na barra de ferro. Nesse momento, sentiu o toque, olhou para a sua mão e viu outra mão delicadamente alisando seus dedos. Deparou com um olhar feminino sorrindo melosamente para ela. Meio que sem graça retirou a mão.
- Ola, tudo bem, cumprimentou a dona da mão atrevida.
- Ola, respondeu.
Começaram a conversar alegremente, e ela foi se encantando com a moça simpática, bonita, atraente, bem feminina. Quando foi convidada, aceitou ressabiada. Mas agora, ali no quarto, enquanto fumava ouvindo o chuveiro molhando a pele da companheira, chegou à conclusão que aquilo não era com ela. Tinha tido isso a ela, e ela lhe dissera:
- Use a imaginação, pense que você está com outra pessoa, com o seu namorado...
- Não tenho namorado.
- Então com algum homem que você gostaria de transar.
Ela na era mulher de imaginação, era mulher de ação, não era de ficar imaginando uma pessoa estando com outra. De sentir borracha entre as pernas, consolo é só para gays solitários que não conseguem conquistar ninguém. Não, ela não era para isso.
Portanto, precisava sair logo dali. Vestiu-se, e deixou um bilhete em cima do criado mudo.
“Sinto muito. Foi um prazer conhecê-la, mas o meu negócio é homem mesmo. Felicidades.”
Pegava o elevador quando ela saiu do chuveiro e lia o bilhete.

04.10.06

Ninfomaníaca? Ela uma ninfomaníaca diziam as amigas. A primeira vez que viu essa palavra foi no filme Teorema, de Pasolini. Mas no filme a personagem torna-se ninfomaníaca para ficar mais perto do Anjo que a seduzira. Com isso tinha, cada vez que dormir com um rapaz, o Anjo que ela não podia ter mais. Era uma maneira de se santificar.
O que as amigas não entendiam era o furor uterino que não a deixava sossegada. Precisava aplacar essa desenfreada patologia uterina.
Acendeu um cigarro. Soltou uma longa baforada. Tomando seu chope tranqüilamente observava os pedestres em seus afazeres burocráticos ou porque tinham aonde ir. Cansada da insana noite, queria no momento dormir. No entanto, sentada na lanchonete, ouvindo conversas esparsas, prestando atenção aqui e ali, no fundo, as amigas, tinha um quê de verdadeiro. Sentia necessidade de provocar a sexualidade alheia, principalmente à masculina. Era um desafio que propunha a ela mesma sair vencedora. Até o momento, achava-se vencedora.
Não tinha um Anjo, ou dizendo mais literariamente, não tivera um Anjo que a seduzira. Talvez sua primeira aventura? Não, não foi e nem poderia considerar como sendo, porque o caráter da sedução era outro, tinha um outro propósito. No filme o Anjo simplesmente apareceu e abriu os olhos da personagem, demonstrando a ela, a vida monótona e insípida em que vivia. Enquanto que ela, não tinha e não precisava de um Anjo para abrir os seus olhos. Não tinha uma vida monótona e insípida, sua vida foi sempre cheia de aventura...

 

06.10.06

Notava mudança insignificante, é claro, levando-a a agir assim de imediato diante de situações provocantes. O psicanalista lhe dissera:
- Isso não é para se desesperar. Você pode tirar proveito disso, desde que não machuque terceiros, entende?
Ela entendia. Sim entendia dentro de uma possibilidade pequena que sua reflexão alcançava. Mas, esse negócio de fogo uterino, esse treco que não sabia de sua existência, então, será que não é isso que as prostitutas tem? Só poderia ser, para estarem todas as noites na rua vendendo o corpo. Não a interessava o que os outros têm ou faziam, o que interessava é o que ela fazia e, o que poderia ganhar com isso. Teve a percepção um mês depois de começado a trabalhar, mais precisamente, começado a pegar o metrô.
Naquele dia, umas duas semanas depois, ainda estando na perspectiva do emprego novo, tendo ficado quase um ano parada, alheia ao que se passava ao seu redor, não reparou no rapaz que se posicionou atrás dela. Por infelicidade a chuva não parava de cair e, com isso, o metrô reduzira a velocidade, o que demoraria a chegar à estação em que desceria. Tinha passado duas estações quando seu corpo foi comprimido, melhor dizendo empurrado contra a mulher a sua frente. Esta, olhando para ela com ar de reprovação, tentou sair do seu campo de violação, o que não adiantou nada, a situação ficou pior.
O corpo do rapaz estava colado ao dela. O calor másculo recendendo perfume e fragrância de quem tomou banho de manhã, invadiu o corpo dela envolvendo-a sexualmente. Se pôs em guarda, retesou-se toda para o que desse e viesse. Sorriu involuntariamente...

 

09.10.06

O rapaz equilibrava-se nas pernas, com as mãos nos bolsos. Seus corpos acompanhavam o movimento do trem. Comprimida entre ele e a mulher, não tinha como se mexer. Na nuca a respiração quente do rapaz a excitava, e os cabelos da mulher que, a toda hora, batia em seu nariz a irritava. Não ligou, concentrou-se no rapaz. Estava de vestido, sempre gostou de vestido, raramente usava jeans. O rapaz usava calça de brim pode notar. Podia imaginar a pele dele por cima do pano roçando seu corpo por cima do vestido. Deveria ter umas coxas grossas, pois seu corpo quase se encaixa todo entre as pernas dele. As mãos nos bolsos roçavam suas coxas. Tentou olhar para trás, não conseguiu ver o rosto. Nisso, a mão deslizou entre suas pernas. Tremeu um pouco inesperadamente. Sentiu o dedo comprimindo os lábios. Seria mais excitante se eu estivesse sem calcinha, pensou. Da próxima vez virei sem. Molhada, úmida, ajeitando, como desculpa a roupa, roçou a mão na braguilha e deslumbrada, pode sentir o desejo aprisionado querendo explodir.
A partir desse dia, deu-se conta da sua ninfomania e, prometeu a si mesmo, nas próximas vezes estaria mais preparada, que não perderia as oportunidades que surgissem, talvez até, quem sabe, ganhando alguns trocados. É quem sabe!

 

10.10.06

Hoje ela estava preparada. Antes de sair conferiu: saia, blusa, calcinha, meia, sapato, cabelo, lábios pintados em fim, tudo como havia programado.
Descobriu que saindo um pouco mais tarde, pegaria o metrô mais cheio, o pessoal mais decente, trabalhadores de paletó e gravata e, não trabalhadores da construção; não era preconceituosa, queria tentar os engravatados, ganham bem, com aparência de serem importantes, talvez até fisgasse um endinheirado, quem sabe – pensou ao entrar no trem rebolando propositadamente.
Morena de seios fartos, cabelos cacheados, exalando sexualidade, não passou despercebida. Com seu jeito bem feminino, conseguiu ficar no corredor, entre um rapazola e uma senhora já meio que passada.
- Essa é você amanhã, pensou ao passar pelas costas da senhora.
Sorriu maliciosamente para o rapaz, com seus dezoitos anos mais ou menos, calculou ela. Estupefato com tamanha beleza sorrindo para ela, o rapaz engoliu a saliva, e retribuiu o sorriso sem jeito, engasgando sem saber se falava ou continuava sorrindo.
- O melhor é ficar na minha, convenceu-se timidamente.
Ela se achegou mais para o lado dele.
- Meu Deus, que morena. Se eu contar para os manos eles não vão acreditar.
Grudado a ele, notou por cima do vestido a maciez da pele dela. Tremeu excitado. Forçando, ela conseguiu ficar na frente do rapaz roçando os seios em seu peito. Notou a gravata bonita, o terno bem passado, cabelos cortado bem baixo, pensou:
- Hum, rapaz novo, em ascensão de carreira, deve ganhar razoavelmente bem.
Percebeu a excitação. Tremia, começou a suar, não sabia o que fazer. Sua mão esquerda roçava nas coxas dela. Provocando-o encostou o joelho entre suas pernas. Vermelho o rapaz tentava se controlar, percebeu, não conseguiria se conter. Seus olhos não desviavam dos seios dentro de um decote provocante. Ela levou a mão na perna dele e, lentamente, foi subindo por dentro da sua coxa. Nisso, o rapaz fez uma careta exclamando:
- Não, por favor pare...
- Seu nojento, fraco, doente, vá procurar um médico, tarado, gritou ela.
E deu um empurrão no rapaz que, todo vermelho, acanhado, tentava esconder a enorme mancha escura que se formou na sua calça cinza claro.

 
11.10.06

Ela esperava. Já estava no segundo cigarro. O que será que ele fazia no banheiro? Por ela tudo bem, tinha o tempo que fosse para esperar. Precisava fazer a abordagem com outro esquema. O esquema atual não funcionava direito. Tinha seus momentos de êxitos, porém a maioria era negativa. Como agora.
- Você pode esperar um pouco? Vou até o banheiro e já volto, pediu logo que entraram no quarto.
- Tudo bem, fique a vontade - disse ela.
No entanto o cara ultrapassava sua consciência de espera. Nervosa, fumava o terceiro cigarro que amassou no cinzeiro sujo em cima de um móvel capenga. Sentia-se irrita. Decidiu ir embora. Jogou as pernas para fora da cama e, pegava o vestido quando ouviu ele dizer:
- Você está como eu pedi?
- Sim, estou, respondeu.
- Só de camisola?
- Sim, só de camisola - droga o que esse cara está aprontando?
- Posso te pedir mais uma coisa - gritou ele através da porta fechada.
- Pode.
- Você não vai rir?
Rir! Porque rir? Intrigada respondeu malcriada.
- Não vou, não porra!
- Está bem, vou abrir a porta bem devagar.
Cacete, o que esse cara está aprontando? Preparou-se, colocou o corpo em guarda.
A porta do banheiro lentamente foi abrindo, bem devagar. A lentidão estava dando lhe nos nervos. Quis gritar para que andasse logo. No entanto ficou a espera.
E a figura que viu saindo do banheiro foi grotescamente ridícula que ela não pode deixar de cair na gargalhada.
- Porra! Você prometeu não rir.
- Aí meu Deus, desculpe, sinceramente desculpe, é que nunca passei por uma situação dessa.
Ela não conseguia se controlar, tentava segurar a gargalhada, mas ela vinha lá de dentro num ímpeto e saí num abalroamento de risos seguidos.
O cara da porta do banheiro ameaçava rispidamente.
- Você prometeu que não riria, e além do mais estou lhe pagando, não estou?
- Sim, está - ela respondia colhendo o fôlego entre as risadas -desculpe, mas se você tivesse...., por favor, não se irrite...., se tivesse me prevenido acho que seria melhor...., não acha?
- Parece que não tem sensibilidade, não tem fantasia nenhuma?
- Sim, tenho, mas não esperava isso. Ver um homem másculo como você, peludo, vestindo camisola e calcinha,... ah! desculpe, ta.
- Tudo bem, vamos fazer de conta que nada disso aconteceu, está bem? Vou entrar no banheiro e sair como se fosse a primeira vez.
- Tudo bem...
O cara entrou no banheiro, fechou a porta. Ela enfiou o rosto no travesseiro e riu, riu, riu até chorar molhando a fronha.

 

13.10.06

Gemia. E como gemia! Meu Deus será que não vai parar – gritou o pensamento aflito macerando o cérebro. Já faz mais de vinte minutos dentro dela e nada. Caçamba! Ela ajudava, incentivava acariciando as costas. Audaciosa levou o dedo entre as nádegas mole que chacoalhavam parecendo gelatina. O pior era agüentar o peso e o bafo de cigarro mordiscando o lóbulo da orelha. Credo! Ainda bem que vai pagar, não reclamou o que pedira, portanto tinha que agüentar.
Será que era dessa maneira com as profissionais da noite? Combinavam, entravam no quarto, se despiam e, vapt e vput, nada mais? Por sorte conseguira alugar esse modesto quarto nas proximidades. A única exigência do proprietário era para limpeza. Ela tinha que cuidar em deixar o quarto limpo como encontrou.
De repente os gemidos cessaram. Como uma sirene, o cara começou a berrar num oh bem prolongado que não acabava mais. Depois, se soltou em cima dela, pousando a cabeça em seu peito. Ufa! Até que em fim, disse mentalmente. Dali a pouco notou, o cara estava dormindo, começava a roncar. Oh! Meu, ta pensando o que, sai de cima de mim, hei, tenho que ir trabalhar vamos levante. Deu um safanão no coitado que, assustado, tropeçou ao se levantar. Agora no banheiro vai se lavar e deixar essa meleca de camisinha jogada no chão e, eu é que vou catar. Que merda!
No metrô o cara era outro. Todo engravatado, cheio de gentilezas, boa conversa, falaram de vários assuntos durante o trajeto, até que, por sua iniciativa, bem displicentemente, forçou o cara fazer o convite. Não respondeu logo de imediato, fez um pouco de suspense, retesou até onde pode a surpresa, apenas para ver a reação dele. Dos olhos chispavam fagulhas de sexo atraente. E quando ela disse sim, e jogou a oferta num preço que, para ela, imaginava alto, ele sem pensar um minuto aceitou. Antes não tivesse aceitado, mas... Como dizia o ditado: quem sai na chuva é para se molhar.
Quinze minutos depois, todo lépido e limpo, ele saiu do banheiro. Com gestos enfadonhos, cheios de extravagância metódica, vestiu a roupa. Olhou-se várias vezes no espelho vaidoso contente com ele mesmo. Tirou a carteira do bolso, separou o dinheiro, beijou o rosto dela de leve, depositou em suas mãos o dinheiro. E sem dizer uma palavra, saiu batendo a porta.
Assim que o som da porta, dentro do silêncio que se fez em seguida, morreu num fundo do corredor da mente dela, foi tomada de uma sensação de perda, como se um pedaço tivesse sido arrancado. Respirou fundo, entrou no banheiro, tomou um banho, de pelos menos, vinte minutos, se enxugou, se vestiu, guardou o dinheiro na bolsa e, desceu.
Na rua o sol brilhava monotonamente entre o vai e vem da cidade já desperta.

 

16.10.06

Não sei se devo fazer essa pesquisa, mas... É o seguinte...
A Dama do Metrô, como já me disseram, está ganhando vida própria, portanto ela sabendo disso, está me atormentando para que lhe dê um nome. E concordo com ela. Uma personagem, seja ela qual for, tem que ter um nome. Já pensei em vários mas nenhum me convenceu. Melhor dizendo, nenhum se identificou com a personagem. Assim sendo, recorro a você, caro leitor atento dos meus escritos. E pergunto:
- Qual o nome que devo dar a essa personagem libidinosa, até um pouco inescrupulosa, que procura apenas aplacar o seu fogo uterino, chegando às vezes se comparar com as prostitutas que vende o corpo para se alimentarem. Ela disse uma vez:
- Não sou prostituta, sou apreciadora do bom sexo, do que é belo entre duas pessoas, principalmente se essas duas pessoas forem um homem e uma mulher. Portanto acho que devo ter um nome.
Bem, depois dessa prerrogativa, você leitor, deve concordar comigo, ela merece um nome, não acha?
Então, vou fazer o seguinte: você leitor, indica um nome e, o nome mais indicado, será o nome da nossa personagem, o que acha?

 

17.10.06

Impaciente esperava. Tinha que esperar, impusera a si mesma que enquanto não tivesse um nome não se mexeria. Que escolhessem um nome decente, pois não podia viver sem nome, sem uma identidade. Estava cansada de ser tratada como ela, apesar de que, Ela foi uma excelente cantora jazzística. Mas ela não tem voz, não tem o charme das grandes damas do jazz. Não queria ser apontada, principalmente pelos homens como simplesmente: ela. Precisava de um nome, por isso esperava.
Sabia que vários nomes foram cogitados, talvez mais de dez, portanto teria que conter sua impaciência e esperar. Com isso perdia muitas aventuras que poderia estar neste momento usufruindo. Quem esperou até agora, pode esperar mais um pouco, não é o que diz o ditado? Ser apontada como uma ninguém, uma sem nome. Vê se pode isso! Será que esse escritor tolo pode assim, sem mais e nem menos, tomar posse de uma pessoa, colocar ela numa determinada situação, fazer o que bem entendesse com ela e, não lhe dar um nome? Não, claro que não. Tudo bem, ele até pode usufruir os meus movimentos, meus sentimentos, criar a situação que quiser, colocar-me onde for, o que não pode é deixar-me sem nome. Que droga de escritor que pensa que é?
Olhou as horas. Decidiu que não falaria mais nada. Como estava de licença por mais uma semana, resolveu tomar um bom banho, pegar um filme na locadora, estourar uma panela de pipoca, e confortavelmente assistir o filme. Não perderia seu bom humor por causa desse frívolo escritor. Ele que fosse a mer...

 

18.10.06

Ela que ainda não tem nome desceu a escada rolante, e se postou na plataforma vazia, tendo apenas uns gatos pingados aqui e ali, a espera do trem.
Sairá de casa bem mais tarde do que era o costume. O rádio relógio não despertara no horário programado. Mesmo assim, saiu com a esperança de alguma aventura acontecer. No ônibus seus olhos de amêndoa cravaram-se num rosto quadrado, queijo proeminente, olhos profundos, melancólicos, perdidos nos pensamentos sabe-se lá o que, cabelos revoltos. No entanto seus olhares não se cruzaram. Ficou na expectativa que fosse pegar o metrô, mas para sua decepção, ele tomou direção contrária.
O relógio pendurado no teto da estação lhe dizia ser nove horas e dois minutos. Paciência, nem sempre posso ter o que eu quero, refletiu, mudando o pé de apoio. Pensou em retirar o livro da bolsa para ler, acabou desistindo. De repente, sem notar, a plataforma foi tomada de usuários apavorados com a demora do metrô.
- Devido à chuva, os trens estão com a velocidade reduzida e com mais tempo de parada, berrou o alto falante da estação.
A temperatura tinha caído, a manhã estava cinzenta, ao longe, as nuvens ameaçavam temporal em algum lugar. Apenas um tímido raio de sol se interpunha entre os prédios. O cenário até que estava bonito, pena que não estava com a câmara, precisava comprar um celular com câmara, porém se resignou, sabia que se fosse destino em ter um celular com câmara, um dia ela teria.
Começou a sentir uma onda de nostalgia saudosa ao lembrar do que acontecera ontem...

 

19.10.06

Ela, que ainda não tinha um nome, sentia-se feliz. Contente rolava pelo campo colhendo o aroma quente e saboroso do antúrio vermelho que caiam do céu. Literalmente chovia antúrios sobre ela, vastos, enormes, de todos tipos e formas, todos vermelhos. Abraçava pencas e pencas de antúrios cobrindo-a totalmente. Uma enxurrada de simbologia fálica satisfazendo seus recolhidos anseios. As espádices batiam em seu rosto, em seus olhos, sua boca, caia nos seios beijando os bicos arrepiados, entre as coxas se espremiam num delicioso aconchego de querer mais. Ela, que ainda não tinha um nome, rolava de um lado para outro, não conseguia abraçar todo antúrio, não conseguia segurar de uma vez só, as espádices que roçavam sua carne nua e provida de sexualidade.
Ao virar o rosto para a esquerda, notou um antúrio preto. Assustou-se. Antúrio preto? Existe? Pouco lhe importava se existissem ou não, o certo era que ele estava cutucando seu ombro esquerdo. Uma vez ou outra, avançando, chegava quase na sua garganta. Que coisa! – gemeu baixinho. Mas não se importou. Gostava. Nisso, com uma violência inusitada, o antúrio preto com sua espádice vermelha, deu-lhe uma estocada que a fez se sobressaltar.
Despertou. Cochilava. Olhou para cima e viu o rosto do moreno que maliciosamente lhe sorria. Devolveu o sorriso. Notou a mala quase arrebentando o zíper que a fechava. Aproveitando o solavanco do trem, jogou o corpo mais para beirada do banco, assim podia sentir a alça da mala com mais veemência em seu ombro.
- Estação Sé, desembarguem pelo lado esquerdo do trem.
Que merda! – precisava descer. Levantou bem devagar levando sua mão que roçou o volume do antúrio com sua espádice ereta. Em pé, rosto com rosto, lambeu mentalmente os dentes brancos e perfeitos do moreno, enquanto seus olhos despejam brilhos de convite para que a seguisse. No entanto, o moreno sussurrou em seu ouvido:
- Quero-a toda nua para mim, me ligue, e disse pausadamente o telefone.
Mentalmente ela, que ainda não tinha um nome, anotou o número e, por sua vez, numa voz sexualmente provocante disse:
- Ligarei sim, pode esperar, gostoso.
Da plataforma deu tempo ainda de ver o moreno jogar-lhe um beijo que ela, que ainda não tinha um nome, pegar o beijo e, com a mão fechada, levá-lo entre as pernas.

 

20.10.06

Ela, que agora tinha um nome, olhou para os nomes mais votados torcendo o nariz.
- Bom aqui está o resultado da votação:
Sabrina, Rebeca, Patrícia, Monique, Lucia Fernanda e Cristina, não tiveram votos nenhum;
Tabata, Ivana, Bernadete e Elo tiveram um voto cada uma;
Geni, Mariana, Ofélia, Sheila, Vanessa e Verônica tiveram dois votos cada uma;
Mirtez, Margô, Madalena, Ludmila e Dama tiveram três votos cada uma;
Constantine teve quatro votos;
Lolita e Bebete cinco votos cada uma;
Carmem teve seis votos;
e a ganhadora foi
Malu com oitos votos.
Portanto a partir de hoje meu nome é Malu. Mas aqui para nós, que raio de nome é esse? Malu. A única que eu conheço é a atriz global que, por sinal, não é lá essas coisas, representa sofrivelmente, e contracena com os galãs lindos e famosos que só tem beleza física mais nada. Malu... Quantas vezes repeti para mim mesma: Malu, Malu, Malu, Malu, Malu apenas para me certificar que passarei a ter esse nome. Bem é melhor do que ser chamada constantemente de ela, coisa que me deprimia. Malu que raios de leitores... Desculpe, vocês não tem nada com isso, mas é que esse escritor não sabe dar nome aos seus personagens, isto é, ao seu personagem, porque até o momento ele criou somente eu, a Malu, a Malu bem comportada, a Malu boa moça de família, trabalhadora, a que tem fogo uterino. Realmente, esse escritor é fraco, sofrível, não concordam? Precisou da ajuda de vocês, leitores, para escolher um nome para mim, sua personagem, por enquanto única, e, acho que vou ser a única nessa cabeça podre e pervertida desse escrevinhador de quinta categoria. Tudo bem, não vou me estressar por culpa dele. Já que me criou que dê a mim todos os benefícios que um personagem possa ter. Mas, vamos e venhamos, Malu...

 

23.10.06

Acordou com o braço dormente. Já não sentia o braço por baixo da cabeça do moreno que, dormia com a boca no bico do seu seio. Tentou retirar o braço para não acordá-lo. Começou a puxar, mas o amante se virou para o outro lado e, levou consigo as cobertas, ficando com as costas a mostra. Malu sentiu vontade de acarinhar os músculos morenos até as nádegas. Lascar naquela carne uma mordida gostosa, como tinha visto numa foto.
Nisso, o negro... Não, não deveria chamar de negro, isso é preconceituoso, não é politicamente correto. E como deveria chamar essa massa nua e escura ao seu lado? Gostaria de saber. Como se tivesse lendo sua mente, Malu assustada deparou com o olhar do amante fixado nela através do espelho pendurado na parede. O moreno percebeu o embaraço dela:
- O que foi? – perguntou.
- Não nada.
- Como nada, se você se assustou ao ver que eu estava te admirando, falou virando-se de frente para ela.
- Bem, é que estava pensando como deveria chamá-lo.
- Como assim?
- É que não sei se devo chamá-lo, não se ofenda, por favor, de preto, negro, moreno, enfim, o que é politicamente correto.
- Oh! branca... Pode me chamar do que quiser, não tenho essa frescura que muitos negros tem, não.
- Ainda bem.
- Tanto é que você me chamou de nego... Até disse, vem nego saciar sua branca carente.
- Eu disse isso?
- Disse.
- E quando?
- Quando chegamos os dois ao orgasmo. Até cravou suas unhas em minhas costas, o que achei delicioso.
Envergonhada, sem jeito, deu lhe um beijo ao qual foi retribuída.
Fazia de tudo para não parecer uma prostituta, talvez até fosse, mas não queria que seus amantes pensassem isso dela.
- Escuta, não sou o que você está pensando...
- O branca! Não estou pensando nada, ta. Vou tomar um banho que tenho de trabalhar. Aliás, venha, venha tomar banho comigo, o que acha?
Malu achou a idéia boa. Jogou as cobertas de lado e abraçados entraram no banheiro.

 

24.10.06

Malu tinha visto o filme já a um bom tempo. Lembrou do filme depois que o médico sentenciou a sua ninfomania. Apesar de que a personagem cinematográfica, cleptomaníaca, apresentava uma aversão ao sexo e, ela, Malu, tinha fome de sexo. As duas estavam ligadas portanto, pela mesma causa. Marnie, a personagem do filme – Marnie, confissões de uma ladra – roubava compulsivamente por um trauma de infância, mas só que Malu não sabia que trauma seria esse que a atormentava. O psiquiatra não tinha revelado ainda, talvez por não saber ou, por não querer magoá-la.
O filme em si não era os dos melhores no gênero: suspense. Mas a história conquistara Malu. Sentiu pena da personagem. O que a desagradou foi o desempenho dos atores, não convenceram, a atriz uma loira aguada, sem carisma, o ator um canastrão que fez sucesso por causa de uns filmes de espionagem, e, da plasticidade das imagens, principalmente a imagem final, onde os dois saem da casa de Marnie e, ao fundo, aparece uns navios falsificados.
Nisso, o trem deu uma freada tirando-a do devaneio. Como estava sentada, coisa que não apreciava muito, viu a sua frente uma braguilha de jeans meio surrada. Ergueu a cabeça e deparou, perspectivamente, um rosto japonês. Sorriu ao lembrar da fama que tinha os japoneses.
- Será que japonês têm mesmo pequeno...?
Decidiu verificar. Por sorte, entrava uma senhora de idade. Malu levantou cedendo o lugar para a senhora e, ao mesmo tempo, bem no ouvido do japonês sussurrou palavras que só o nipônico ouviu.
- No, no, japonês, china sim, china quer rapidinha.
Malu ficou vermelha, envergonhada.
- Oh! chinês burro.
Desceram do trem. Na plataforma ficaram por um bom tempo decidindo o preço. Até o que o chinês concordou com o que ela pedia.
E, no aconchego do quarto, debaixo das cobertas, abraçada ao chinês, sentia-se satisfeita. O danado até que fora bom de cama, reconheceu. Não era daqueles apressados, querendo acabar logo, gozando antes do clímax certo. Não. O china, apesar da calça jeans surrada, camisa parecendo time de futebol, fora de uma delicadeza incrível com ela. Apenas uma coisa a intrigava, por isso perguntou:
- O china, me responde uma coisa?
- Si, china responde o que você quiser.
- Pelo o que eu sei japonês, chinês, coreano são desprovido de pelos, isto é, não são peludos. Eles têm os pêlos nos lugares certos.
- Si, si, chinês não é mesmo peludo.
- Então, como é que você sendo china e é peludo? Olha só o seu peito - e demonstrando o que dizia, passou a mão pelo peito peludo do chinês, que se arrepiou todo.
- E que china sempre viu dizer que mulher brasileira gosta de homem peludo.
- Sim, e daí?
- Daí que china toma hormônios para crescer pelos.
- O que?
- É que china toma hormônios pros pelos crescerem.

 

25.10.06

Malu refletia. Colocava em ordem às seqüências da vida numa determinação dos porquês envolvendo seu agir que, muitos, a condenava. Não entendia a necessidade em saber desses porquês. O que primeiramente pensou e, colocou em ação, foi fazer psicanálise. Depois de procurar, pesquisar, encontrou um psicanalista recomendado que, diziam, ser de confiança, tanto no procedimento ético como cumpridor do juramento hipocrático, como lhe disseram as amigas. O que vinha ser esse juramento não tinha noção nenhuma do que seria e, muito menos o que era hipocrático. Mesmo assim, após pensar vários dias, pesando os pós e os contras, decidiu marcar uma consulta.
Estava no horário. Não teria que correr, se o metrô ajudasse, for mais rápido, chegaria até com vinte minutos de antecedência. Foi quando ao virar o rosto, num movimento inconsequënte, notou o rapaz loiro em pé que a fitava. Seu coração disparou. Nunca fizera amor com um loiro. Não poderia perder a oportunidade. Indecisa se devia ou não, encarou os olhos escuros que a admirava. Nisso, um perceptível gesto chegou até os seus olhos bem no momento em que se levantava para descer. Da plataforma jogou um beijo antes que a porta do trem fechasse. O loiro sorriu, talvez pensando em encontrá-la futuramente.
Contrariada por perder uma aventura, saiu da estação recebendo o sol da manhã contente com a vida.
Com o papel na mão, verificou que o numero que procurava estava a sua frente. O prédio se encontrava no outro lado da rua. Atravessou e entrou no escuro cinzento prédio todo ricamente acarpetado. No elevador apertou o numero do andar do consultório do médico.

 
27.10.06

É verdade, tinha marcado a consulta e não fora. Refletiu. Para que ela queria saber o porque do que lhe acontecia? O que tinha a fazer era aproveitar, pois o tempo passa, a idade chega, aí só terá lembranças.
Malu na verdade, foi procurar o psicanalista. Chegou até a porta do consultório. Indecisa ficou por minutos sem saber se batia ou não. Vendo a decadência do corredor escuro, sujo, e na porta a tabuleta torta com os dizeres mal escritos: Dr. Valdo Pastore, psicanalista, atende também a domicilio, decidiu não entrar. Chamou o elevador e desceu.
Ao passar pela portaria notou o contraste chique com o restante do prédio. Achou esquisito ou, seria apenas aquele corredor que estava entregue as moscas. No momento em que transpôs a porta automática cruzou com o loiro.
- Será que ele...
Voltou rápida. Perguntou para o homem que estava atrás do balcão onde se lia: Informações.
- Por favor.
- Pois não, senhorita.
- Esse rapaz que acabou de entrar no elevador, é o Dr. Valdo Pastore?
- Quem? Luciano?
- Esse é o nome dele?
- Sim, mas não diga que eu falei. Ele é filho do Dr. Valdo.
- Ah! obrigado.
- Quer falar com ele?
- Não, pode deixar, obrigada.
Não precisava de médico. Conhecia-se e conhecendo-se é um passo para se chegar... Onde? Sei lá, em qualquer lugar. Esse era o lema que tomava para si. Achava que com essa atitude ou teoria, ou o que fosse, estava se auto-analisando. Se, estava ou não, também não faria diferença, estava contente consigo mesma.
Olhou para a direita e depois para a esquerda. Nada interessante. Fazer o que, suspirou seu coração afoito. Quem mandará levantar atrasada. Nisso a voz pausada do alto falante anunciou:
- Estação Consolação.
Saia do trem quando foi empurrada.
- Desculpe, disse numa voz desprovida de pressa.
Era novamente o loiro. Mas será possível, pensou preocupada.
- Aonde eu vou encontro esse cara! Que coisa! O que o destino está me preparando?
Perguntou mentalmente ao pisar no degrau da escada rolante.

 

30.10.06

O que o destino estava lhe preparando? Acreditava em destino? Não sabia dizer. No entanto sempre ouvira dizer: quem planta colhe, isto é, não poderia deixar tudo a espera do destino, mesmo que ele já esteja traçado, isto é, que tudo o que ela esta passando, vivenciando já está determinado a passar. Mesmo assim, precisava mexer os pauzinhos, fazer acontecer, pois se não acontecesse não haveria destino, ficar a espera não era do seu feitio.
Malu pensou no loiro. Cruzara com ele duas vezes, será que cruzaria novamente com ele? Se isso acontecer não esperaria o destino comandar seus movimentos, ela que comandaria o destino, pensou resoluta.

 

 

Osvaldo Pastorelli: Poeta e artista plástico, nascido em Rio Claro, no interior de São Paulo, hoje vive na Capital, onde se casou e nasceu sua maior obra-prima: Caroline. Nos anos 80 participou do concurso da Biblioteca Afonso Schimitt, sendo premiado em segundo lugar com a poema "Balada da Forma". A partir daí nunca mais parou de escrever. Desde 1998 convive com a poesia em algumas listas de discussão da Internet. Participou de várias antologias, e atualmente com mais dois amigos poetas: Carlos Eduardo Savasini e A. Bittar, vem coordenando “Rascunhos Poéticos”, aos sábados na Casa das Rosas – Espaço Haroldo Campos; tem contos e crônicas publicado no site Anjos de Prata e no Recanto das Letras e um Fotoblog

 

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