A Dama do Metrô

01.11.06

Malu apenas agia conforme a ocasião propiciasse. Portanto não pensava muito no destino. Sendo assim, todos os dias ao sair de casa, se entregava sem medo das conseqüências. Se elas surgissem, o que sempre era provável, conseguia uma maneira de se safar delas. Havia nisso dois lados: o positivo e o negativo. No final pesava os dois lados e tirava o resultado que, quase sempre, era positivo. E naquele dia não foi diferente.
Otimista, sairá confiante recebendo o sol com alegria. A manhã estava clara e bonita.
Por coincidência, que só acontecem no cinema e nos livros ultra-românticos, e, também, sem que ela estivesse pensando, ao descer as escadas rolantes, cruzou com o loiro que subia.
- Nossa! De novo esse loiro, qual o nome dele mesmo?
Não lembrava.
- Esse loiro está infernizando meu desejo sexual. Da próxima vez vou segui-lo e, quem sabe, acontece alguma coisa interessante.
Fazer como no filme “Estação doçura”, com aquela atriz do filme “Bagda Café”, onde a personagem principal, se apaixona pela voz do operador do metrô. Primeiramente ela passa a pegar o metrô todos os dias no mesmo horário, depois, descobre os horários de entrada e saída, e, por fim, se envolve com o cara e acaba tendo uma aventura meio amarga. Um bom filme.
Porém Malu não tem os meios artifícios cinematográficos para fazer o mesmo. A única possibilidade seria, de um dia, seguir o loiro e, quem sabe, saber onde mora ou, onde trabalha. Aí sim, criar um esquema para envolvê-lo na sua trama sexual, é quem sabe...

03.11.06

Malu ergueu a perna e passou por cima da cabeça do amante que, aconchegou comodamente num fremir de desejos e gemidos. Malu não queria só proporcionar prazer, queria também que o parceiro proporcionasse a ela a satisfação que, se não fosse plena, mas fosse aprazível pelo menos. Por isso, se submetia aos caprichos dos amantes. Sendo assim, afastou as pernas e se entregou aos vitupérios da peçonhenta língua.
Por causa do feriado, o metrô estava praticamente vazio. Sentia um aperto constrangedor sem noção do que se passava com ela. Talvez por ver o pessoal de um lado para o outro carregando suas malas a fim de desfrutar o feriado prolongado. Tinha se preparado mentalmente para aquela ocasião, mas como sempre, o preparo não fora suficiente. Precisava ainda de muito esforço para entrar numa tranqüilidade zen e não se preocupar por não poder fazer o que desejava. Havia muito ainda para aprender.
- Desculpe.
- Não foi nada.
Assustou-se com o rapaz que entrando no trem esbarrou nela. Malu seguiu o rapaz com o olhar. Sorriu lentamente no brilho dos olhos castanhos escuros, sobrancelhas aparadas cuidadosamente, dentro de um rosto quase oval, sobrepondo a umas mexas de cabelo que teimavam cair sobre a testa. Retribuindo, o rapaz jogou de volta o sorriso.
Em certas ocasiões, Malu se entregava a ponto de, conscientemente, se desligar ao que se passava. Sei corpo estava ali aceitando sem reclamar os carinhos e gestos, às vezes, asquerosos dos parceiros, mas sua mente voava em horizontes mais confortador e aprazível. Aprendia rapidamente a técnica das prostitutas: entregava o corpo pelo sustento e, recolhia a alma para o, se um dia surgisse, príncipe encantado.
Malu também tinha seus sonhos que eram naquele momento subjugados aos desejos da carne.
- Vamos mudar de posição, disse o amante em seu ouvido numa voz calma e profunda.
- Está bem, respondeu e virou-se de bruços.
Ao vê-lo dentro do terno azul marinho, gravata vermelha e camisa branca, Malu não dera muito valor ao corpo franzino do rapaz. Mas no aconchego dos lençóis...

06.11.06

... descobria um mundo interminável de variáveis prazeres que nunca sonhara em ter.
- Por favor, pode dizer o seu nome, perguntou com o rosto afundado no travesseiro, fazendo sua voz soar meio abafada.
- Rodrigo.
- Malu, prazer Rodrigo.
- O prazer será somente nosso, Malu.
Sim, é isso, só nosso, pensou.
Rodrigo tinha uma capacidade incrível de não se fazer sentir pesado, como tantos outros. Malu sentia-o totalmente e ao mesmo tempo era como se o corpo dele flutuasse acima do seu, apenas, ligado pelos desejos. Como agora, deitada de bruços, os corpos rangiam a cama num vai e vem frenético, sem ser violento, sem ser animalesco. Não quis dizer a ele, mas já chegara ao clímax duas vezes. Tinha que concordar, esse corpo franzino sabia do seu potencial. E esse potencial Malu acarinhava numa demonstração de afeto e prazer.
- Posso lhe pedir uma coisa? – perguntou Rodrigo.
- Sim, claro, pode.
Rodrigo encostou a boca no ouvido de Malu e sussurrou.
- O que?
- É, isso mesmo, você faz?
- Você quer que eu...
- Sim.
- Mas isso é perversão, quase gritou.
- Não vejo como perversão, vejo como uma solução para completarmos os nossos desejos.
- Mas...
- Olha, Malu, não sei se você sabe ou não, mas entre quatro paredes vale tudo.
- Bom, é que eu...
- Nunca te pedirão isso?
- Não, que eu saiba...
- Vou lhe dizer outra coisa. Sei que você já gozou três vezes, enquanto que eu preciso disso para gozar, entende? Assim, eu gozo uma vez e você tem a chance de gozar mais uma vez.
- Está bem.
- Isso. Passe bastante vaselina e introduza bem devagar.
Malu, constrangida, passou bastante vaselina no dedo e introduziu dentro dele. Nesse momento, Malu sentiu uma vertente do amante que escondida veio à flor da pele. Rodrigo passou a gemer com sexualidade levando-a ao clímax compartilhando, os dois juntos, um orgasmo só.
Rodrigo que já vinha demonstrando respeito, carinho nos gestos, nas ações, na voz, passou a ser redobrado tudo isso num amalgama de luxúria desenfreada sem cair no furor animalesco que muitos homens, sem controle, se deixam levar desprezando o lado humano da pessoa.
Deitada ao lado desse corpo franzino, quase sem consistência, sentiu respeito, quase amor, mas refreou, pois não podia ser levada pelo seu sentimento.
Vendo Rodrigo sair do banheiro pingando água, se envaideceu a tal ponto que uma lágrima correu por sua face.
- Aqui está o combinado, disse inclinando-se sobre seu rosto, beijando-a carinhosamente.
- Ta certo, disse Malu, querendo prolongar o momento, mesmo sabendo que não poderia.
Rodrigo saiu fechando a porta atrás dele. Malu se encolheu nos lençóis cheirando suor e desejo, e procurou dormir um pouco, guardando na palma da memória os momentos bons daquela noite.

08.11.06

Aureliano já estava no elevador quando Malu chegou.
- Oi, Aureliano, e, graciosamente se virou e apertou o número do seu andar.
-Oi, Malu, respondeu quase se engasgando.
Aureliano vinha há muito tempo cortejando-a, mas nunca tivera a oportunidade em abordá-la. Havia sempre um empecilho que atrapalhava. Tinha noção de que Malu notara sua intenção, e, percebera que ela sabia do seu intuito. Como diretora do departamento de marketing, seu horário era flexível, podia entrar e sair à hora que quisesse. Soubera por alto de sua voracidade sexual, mas nunca questionara abertamente a veracidade do boato. Por ser um funcionário de outro departamento, com um cargo abaixo do dela, não via chance em abordá-la. Mesmo assim, seu instinto lhe dizia para ser audacioso, pois mulher que se preza gosta de homens audaciosos. A única ressalva, era que ele não era audacioso, e, via na audácia um desrespeito à mulher. No entanto vendo-a sair do elevador, rebolando provocativamente, sabia que tudo isso seria irrelevante. Aureliano afrouxou um pouco a gravata e, fechou a porta da sala.
Malu por sua vez, em frente ao micro, pegou-se pensando em Aureliano. Bem apessoado, discreto – é o que parecia – educado, atencioso, não via nada que o desabonasse. Sabia ser fixado nela. Não só os seus olhos perceberam como as amigas já lhe disseram. Porém não queria se envolver com alguém do escritório, ainda mais um subalterno, e, pior, sua posição profissional estava abaixo dela. Orgulhosa, não se rebaixaria. Abrindo o Outlook sorriu levemente. Como não se rebaixaria? Se já foi para cama com cada sujeito bem mais baixo profissionalmente que Aureliano! Acontece que eram desconhecidos, não precisava saber da situação profissional de cada um. Era bem diferente. Ao passo que Aureliano ela conhecia, estavam sempre se cruzando pelos corredores. Poderia causar um constrangimento, tanto a ela como a ele, apesar de que não pensava sobre esse aspecto. Sabia do boato que corria sobre ela. Desde que fosse boato, tudo bem. Não há como comprovar um boato a não ser pego em flagrante. E até o presente momento, ainda não fora pega em flagrante. Levando Aureliano para a cama, ela estaria comprovando o boato, e, mais a mais, não podia confiar nele. Quem garante que ficaria só entre os dois? Ninguém! Como conhecia os homens, fuxiqueiros como eles são, assim que Aureliano a deixaria, contaria para todos que transaram, provando assim sua macheza, seu orgulho masculino. Passando os dedos pelo teclado numa carta comercial, viu que tal possibilidade era provável de acontecer. Seus olhos brilharam alegres. Fixou sua atenção na carta e, carinhosamente guardou o plano que logo poria em prática.
- Aureliano, você que se cuide..., disse baixinho.

10.11.06

O fim de ano estava chegando. A festa de confraternização já estava marcada. Malu se preparava cuidadosamente. Comprara um vestido para ocasião que, sabia, abafaria como todos os anos. O frisson entre as amigas, principalmente as fogueteiras, quebrava um pouco a rotina. Malu à distância, observava o comportamento, tanto das mulheres como dos homens. Via nisso tudo como escape da futilidade do dia a dia, uma fuga dos problemas, como se nessas festas, estivesse fazendo o quem bem quisessem. E muitos mostravam uma faceta que, durante todos os anos, estava escondida debaixo da máscara do bom comportado matrimonial como profissional. Ela sabia se portar, apesar de que às vezes, deixava sua compostura de profissional, e se soltava um pouco, mas nunca chegava às raias da loucura descontrolada.
Suas amigas apostavam que essa seria a oportunidade dela sexualmente conquistar Aureliano. Malu sorria sem opinar exatamente o que pensava. Isso desconcertava as amigas, pois entre elas, se não houve ainda uma concretização de conquista literalmente falando, algumas delas queria aproveitar a festa para abocanhar o coitado do Aureliano. Era uma pena não saberem decifrar o sorriso enigmático de Malu.
- O problema é delas e não meu, pensou Malu fechando o zíper da saia preta decotada.
Aureliano casado, pai, bom profissional, fora admitido há pouco tempo, com seu jeito espontâneo e bom falante, foi conquistando todo mundo, principalmente as mulheres. Tinha ouvido histórias sobre as festas de fim de ano da firma. E como todo macho que se preza, queria tirar sua casquinha também. Por isso, seu foco de atenção estaria inteiramente voltado para Malu. Confiante, foi para a festa preparado para o que desse e viesse.
Primeiramente, como todo o ano, Malu sentada à mesa do canto, observava o vai e vem do pessoal, dos garçons, dos boys, das moças, dos homens, os chefes, os subalternos, enfim, a movimentação geral. Saboreava lentamente a bebida quando notou Aureliano cumprimentando o pessoal. Elegante como sempre, esperou até que ele se acomodasse e depois do quarto copo de cerveja, além da caipirinha, foi que ela se levantou e passou perto dele.
- Olá, Aureliano. Boa festa, disse sorrindo maliciosamente.
- Malu... Boa noite, quer dizer, boa festa para você também, respondeu meio atrapalhado, não esperava a investida dela.
Os amigos começaram a debochar dele.
- Aí, hein! Danado, ganhou a noite!
- Olha tem um hotel aqui perto...
- Puxa! Ninguém até agora conseguiu levar Malu para cama. Será que você será o primeiro?
- Que isso, vocês estão enganados, sou casado..., gagueja Aureliano.
- Casado mas não capado, disse Ricardo que há muito tempo vinha saboreando uma conquista e não conseguia.
Malu notou a perturbação que causou em Aureliano. Jogara o anzol, agora era esperar o peixe morder a isca.

 

13.11.06

O jantar de fim de ano estava, como sempre, animado. Os mais audaciosos enfrentavam a pista se soltando ao comando do álcool como se fossem os astros principais da festa. Aureliano tentava umas passadas, junto com uma sirigaita, loira, que rebolava descaradamente colado a ele. Levado pela euforia da bebida, esquecera até o propósito em conquistar Malu.
Com seu olhar de lince, notou que estava sendo deixada de lado por aquela lambisgóia. Aureliano se esquecera dela. Mas como pantera que sabe dar o seu golpe na hora certa, Malu esperava o momento oportuno. Foi para o meio da pista e, sem se importar de estar dançando sozinha, aos poucos foi se achegando ao casal que despudoradamente colados dançavam parados, mal mexendo os pés.
Em dado momento, se viu perto deles. A loira oxigenada, com a cabeça apoiada no ombro do parceiro, com os olhos fechados, não viu Malu colado às costas de Aureliano. Num repente, sem pensar no que fazia, sua mão correu pelas costas dele, e lascou um beliscão em sua perna. Aureliano soltou um grito abafado, soltou a loira oxigenada e se virou pronto para brigar, quando deu de cara com Malu que sorria para ele. Desconcertado, sem saber como agir, ficou parado com a mão no ar, vendo Malu se dirigir à mesa dela. Teve a intenção em segui-la, porém a loira o segurou. Com raiva deu um safanão quase a derrubando e, tropeçando na indignação, chegou até a sua mesa. Correu o olho pelo ambiente. Não via a Malu.
No entanto da sua mesa, Malu controlava todos os gestos dele.
- Agora, é só esperar mais um pouco e, o peixe estará fisgado, pensou ao pedir outra bebida.
Nisso o show foi interrompido.
- Por favor, atenção. Aproximem que vamos começar o sorteio dos brindes.
À frente do palco foi tomado pelo pessoal que ruidosamente entre gritos e assobios, reclamavam que já era hora.
Foi então, que Malu viu Aureliano se dirigir em direção ao toalete.
Não perdeu tempo. Levantou, atravessou o salão e, alcançou Aureliano antes de entrar na ala masculina. Rapidamente o puxou pelo braço e, sem que desse tempo dele perceber o que estava acontecendo, arrastou-o para o banheiro feminino. Entrou com ele no box e trancou a porta.
Aureliano meio embriagado, com gestos lentos, mesmo assim notou que estava sendo conduzido. Não esboçou nenhum gesto, deixou-se ser levado. No box fechado, se entregou a luxúria feminina sugando todos os prazeres que o instante proporcionava. Revezaram-se nas caricias, ora um dominando, ora outra se entregando. Por sorte, durante o tempo em que ficaram no box, ninguém entrou no banheiro, o pessoal continuavam entretidos no sorteio que ainda se desenrolava quando, Malu sorrateiramente, saia do banheiro.
No dia seguinte, corria o boato que encontraram, Aureliano nu, procurando o carro no estacionamento vazio do restaurante.

14.11.06

Ao ser inquirido, Aureliano respondia:
- Não sei o que aconteceu. A última coisa que me lembro é de estar dançando, depois não lembro de mais nada.
Malu se sentia segura. Aureliano não a mencionava. Mas o que teria então acontecido? Deixara Aureliano se vestindo ao sair do banheiro feminino. Pensativa enquanto tomava o seu café matinal, começou a analisar todos os detalhes daquela noite. Já que não era mencionada, porque deveria ela se preocupar com isso? É que achava estranho, pois Aureliano não apresentava estar totalmente alcoolizado a ponto de não saber o que lhe acontecerá. Fora até impetuoso demais, fogoso a ponto de satisfazê-la plenamente. Pensava até repetir a dose. Sentira e, em sua pele, ainda estava marcada pelos beijos e carinhos de quem sabia o que estava fazendo. Portando se acontecerá alguma coisa foi depois que ela o deixou. Mas o que acontecera?
Malu levantou-se, pegou os papéis e dirigiu-se a sala do diretor. Queria mostrar, melhor dizendo sugerir o tema para uma nova campanha e, quem sabe, pudesse usar Aureliano como modelo.
Nisso, um pouco antes de chegar à sala, cruzou com a secretária do diretor que a encarou com um olhar duro e misterioso.
- Bom dia, Malu.
- Bom dia, Serig... Selene.
Quase a chamou de sirigaita! Porque? Lembrou. Ela dançara com Aureliano. Sim, mas até aí nada de mais . Foi então que num clique, lembrou de um detalhe que não dera importância no momento. Tinha notado um vulto, ou sombra, escondida esperando que ela saísse do banheiro. Fora ela, Selene que aproveitou se vingar por ser deixada no meio salão, por ser trocada pela Malu.

16.11.06

Malu olhou pela janela. Plena primavera, chovia, a temperatura estava baixa, parecia inverno. Como poderia dar o troco? E por que queria ela castigar Selene? Não sabia, eram perguntas que lhe surgiam aleatoriamente não significando nada. Apenas achava injusto o que Selene fizera. Como Andreus, o diretor não lhe dera retorno, resolveu almoçar. Pegou a bolsa e se dirigiu ao elevador. Qual não foi sua surpresa ao ver Aureliano.
- Ola, tudo bem?
- O que você acha?
- Que está tudo bem.
- E como pode estar tudo bem com o que me aconteceu?
- Bom, isso é algo que passará e, um dia, você lembrará como uma piada.
- É fácil falar. Não foi com você que aconteceu, não é?
Disse meio grosseiramente e desceu do elevador em passos largos.
Se tivesse agido de outra maneira talvez nada teria acontecido como aconteceu. Mas o que fazer quando as ações tomam conta do ser sem pensar nas conseqüências? Agora se achava na obrigação em dar apoio a Aureliano e levantar a moral dele. Bom no momento nada poderia fazer, a não ser, almoçar.
Entrou no restaurante e, achou estranho ao ver Aureliano almoçando sozinho numa mesa de canto. Fez seu prato e se dirigiu a onde ele estava.
- Posso me sentar com você?
- Até parece que tem só esse lugar, disse ríspido olhando para os lados.
- Preciso falar com você.
- Ah! é. Ou está me seguindo?
- Escuta, você tomou “Boa Noite Cinderela”, falou rapidamente e sentou sem esperar a permissão dele.
- O que?
- É, “Boa Noite Cinderela”, nunca ouviu falar?
- Sim, já ouvi, mas pensei que fosse boato.
- E eu sei quem te deu.
- Você é lógico.
- Não, claro que não.
- Então como você explica de eu estar nu no estacionamento sem saber o que tinha acontecido?
- Eu garanto que não fui, apenas queria uma aventura com você.
- Conheço sua fama, me falaram dela.
- Eu sei do boato que corre sobre mim. Por isso tomei todas as precauções possíveis para não ser pega em flagrante. Afinal, tenho que manter o mistério sobre mim. Sem um boato que lhe faça a fama, você desaparece, será um ninguém. Entende?
- Não entendo e, nem quero entender.
- Foi a Selene.
- O que? A Selene.
- Por que você acha que foi ela?
- Depois que sai, deixei você se arrumando no banheiro, vi um vulto entrando e, pela aparência era ela. Viu quando entramos e estava apenas esperando eu sair para dar o bote.
- E por que ela faria isso?
- Vingança.
- Vingança?
- É, vingança por ter tirado você dos braços dela.
- E como sabe disso.
- Bom, não dá para explicar, mas uma mulher sabe o que a outra tem em mente quando o assunto é homem.
- Obrigado, isso me deixa lisonjeado.
- Ela entrou, deu Boa Noite Cinderela e se aproveitou de você.
- Agora você está me chamando de otário, é?
- Não, não estou, você não estava em condições nenhuma de reagir. Estava mais para passivo do que ativo.
- Mas você gostou, disse olhando-a direto nos olhos.
- Claro, se não estaria aqui me preocupando com você.
- Bom... Não sei se devo falar... Mas é...
- Diga...
- Promete guardar segredo?
- Segredo, se é segredo para o seu bem até que posso, mas lembre se é segredo por que me contar?
- É que quero, como você saber quem foi que me fez isso.
- Acho que só estou querendo levantar a tua moral.
- Ok, agradeço, mas escuta.
- Pode dizer.
- Lembro de todos os detalhes da nossa... Bem, você sabe...
- Da nossa transa, diga logo, não fique com rodeios.
- Está bem, da nossa transa. E posso lhe dizer que gostei muito.
- Então quer dizer que fingiu estar completamente bêbado.
- Sim e não, isto é, estava bêbado, mas não tanto que pudesse perder a memória. E quando você me deixou, fiquei um tempo parado curtindo todo aquele momento. E foi aí que a Selene entrou.
- O que?
- E posso te garantir que ela não estava com nenhum copo na mão.
- E por que você não revelou esse detalhe.
- Por dois motivos: primeiro, revelaria sua presença e, segundo, não queria passar por bobo ou idiota, sei lá o que. Entende?
- Entendo. Então como e quando ela lhe deu a bebida?
- Talvez, no momento em que me distrai, pois estivemos sentados à mesa, não lembra?
- Lembro. Então só pode ser nesse momento.
- E só fui me apagar quando ela entrou no banheiro, porque depois disso não lembro, realmente de mais nada.
- E o que você vai fazer a respeito.
- Do que?
- Disso tudo.
- Não sei, talvez nada.
- Não vai se vingar da Selene?
- Não sei...

 

21.11.06

Não adianta gritar mais, pensou. Ninguém me ouvira, disse para si mesma. Apesar de estar com a boca meio amordaçada, Selene sentia o pescoço dolorido de tanto virar a cabeça de um lado para outro. Sonolenta, os braços adormecidos, as pernas bambas, conseguia ainda ter alguma noção. Há quanto tempo estava ali? Não sabia. Com os olhos vendados e a boca amordaçada pouca coisa conseguia dava para perceber. Das coxas notava um líquido que escorria. Fora estuprada, pensou ao reavivar um pouco a mente. Sim, foi isso, fora estuprada.

Completamente nua, amarrada na cama, pelo menos parecia ser uma cama, com os pulsos e os tornozelos amarrados, sem conseguir se mexer, sentiu o peso de um corpo penetrando-a, a principio lentamente, depois com violência que chegava as raias da loucura. Ao mesmo tempo uma boca macia de lábios suaves, úmidos roçava seu rosto, seus lábios, pescoço, seios sussurrando palavras desconexas que a fazia se sentir excitada. Sua mente num marasmo de lucidez e sombras, se esforçava para não perder os sentidos. Mas havia momentos que Selene apagava e ela era tragada pela desconhecido torpor. Num instante de lucidez, percebeu que fora virada de bruços e estava sendo penetrada, mas que estranho, não era por homem, e, sim por mulher. Travesti? Não isso não, tentou gritar. Foi então que sentiu um pênis de borracha levando-a gozar mais uma vez.

Uma aragem fina, arrepiou sua pele. Estava com frio. Tentou se cobrir mas não achou nada. Numa lucidez instantânea, Selene notou que estava deitada em algo gelado, parecendo cimento. Seria calçada? Um banco de praça? Não teve tempo em responder. Caiu novamente na sonolência do sono.

Acordou com um bafo quente e fedido em seu pescoço. Empurrou a cara barbuda que espetava seus seios nus. Conseguiu sair debaixo de um corpo magro, nu, fedido, molambento. A cabeça doía. Como fora parar ali, no meio da praça, nua, ao lado de um mendigo que nunca vira, abraçado a ela e também nu? Meus Deus, o maldito do mendigo transara com ela aproveitando que estava desacordada. Chorando desesperadamente, se ajoelhou ao lado do mendigo que, assustado não sabia o que fazer.

Tempos depois, se perguntavam, porque não quisera dar queixa, não sabia o que dizer, isto é, sabia sim, mas não queria quebrar o prazer, pois apesar de ter reconhecido o fato como uma vingança bem feita, e, o pior sabia quem fora o autor, ou autores, ela tinha gostado.

 

23.11.06

Selene se aborrecia. Quantas vezes tivera de contar o que lhe acontecerá e, quantas já dissera que não se importava, que estava tudo bem, que não queria saber quem fora ou por que fora. Fisicamente nada lhe acontecera, e, também reconhecia, que interiormente estava tudo bem. Então porque as pessoas têm que ficar fuçando o alheio. Querendo saber isso e aquilo? Seu chefe por exemplo. Queria por que queria que ela lhe dissesse como fora cair numa armadilha dessas? Que se fosse com ele colocaria os culpados na cadeia ou, então, processava por danos físicos e morais. Não sabia todos os detalhes, dizia, para não se comprometer mais ainda.

Enquanto tomava o café na lanchonete do prédio, viu Aureliano e Malu entrarem. Ali estavam os culpados, falou seu intimo, os culpados que revelaram a ela uma parte que ela não conhecia. Quanto a isso poderia dizer até que era grata a eles, colocaram a flor da pele o escondido, o sórdido prazer de ser levada a se satisfazer com o mistério, com o perigoso, com a fantasia roçando o abismo do prazer. Sabia que a partir daquele dia em diante, se reconhecia outra pessoa. Se dissesse que estava contente consigo mesma, ninguém acreditaria, a julgariam louca, que precisava de psiquiatra. Talvez até estivesse, mas era uma loucura saudável, com uma pitada de masoquismo. Terminou seu café, colocou a xícara no balcão e passou rente aos dois, e, sorrindo cumprimentou:

- Olá, como vão os dois. Vendo vocês dois juntos até parecem que estão de namoro.

Viu no olhar o assombro dos dois. Malu e Aureliano realmente não esperavam tal atitude dela, mas também não podiam deixar que Selene suspeitasse deles. por isso, com um sorriso desconcertante, retribuíram o cumprimento da melhor maneira possível. Caso Selene desconfiasse deles, não veria toda sorridente cumprimentá-los. Concluíram então que Selene nada suspeitava deles. Sorriram um para outro satisfeito. No entanto Selene tinha certeza, principalmente depois do seu cumprimento ao vê-los surpreso com sua audácia.

- Realmente foram eles e, não os culpo, quiseram vingança, conseguiram, mas quem saiu ganhando foi eu e não eles. Eles vão continuar na mesma vidinha fútil de sempre, enquanto eu ganhei com a descoberta de mim mesmo, com a descoberta do meu interior.

Rodou a enorme cadeira e descortinou a sua frente, a cidade, a enorme cidade que, do vigésimo segundo andar, dava a ela uma ampla visão de edifícios e mais edifícios. Gostava da cidade, gostava de vê-la aos seus pés, dando-lhe o poder que não tinha. Fazendo-a se sentir superior humilhando quem a humilhava. Levando a mente num ponto de equilíbrio relaxado, começou a retroceder o pensamento até os acontecimentos fatídico que revelou a ela uma outra mulher.

 

28.11.06

Não tinha meios de rever o loiro. Pensou onde e quando cruzara com ele. Duas vezes fora no metrô, e a outra vez fora ao procurar o psiquiatra, Dr. Valdo Pastore. Isso mesmo, o porteiro até lhe disse que o loiro era filho do psiquiatra. Ah! precisava marcar uma consulta com o médico. Claro que precisava.

Enquanto isso, rebobinou a fita mental e chegou à conclusão da hora, não exata, mas um cálculo aproximado das vezes que cruzara com o loiro no metrô. Qual o nome dele mesmo? Não conseguia lembrar. Ah! já sei, berrou contente. Luciano... Luciano, repetiu várias vezes para não esquecer mais. Assim decidido, assim feito.

A partir do dia seguinte, começou a pegar o metrô todos os dias no mesmo horário. Porém, estando na plataforma uma dúvida sombreou sua audácia. Qual carro? É qual carro fora? O primeiro, o segundo, o terceiro ou o último. Mais uma vez retrocedeu a fita mental e chegou à conclusão: fora no terceiro carro. Assim decidido, assim feito.

Já fazia quase três semana que vinha pegando o metrô, no terceiro carro, e nada de encontrar com Luciano. Será que não pega mais metrô? Filho de médico deve ter seu carrão, vai trabalhar de carro, isso é, se trabalha também. Será que é médico como o pai? Poderia também estar de férias, viajou, ou sei lá o que. Quando fora a última vez que o vira? Há um mês, talvez menos até.

Seu instinto feminino lhe dizia para não desanimar.

30.11.06

Desanimar não desanimaria, claro que não. Em último caso, marcaria uma consulta com o Dr. Valdo e quem sabe. Pipocaram fantasias na mente alucinada.
Como sempre fazia, Malu saiu de casa preparada, mas não contava com a chuva e nem com o atraso do metrô. Um pouco antes de descer na plataforma, notara o movimento da caterva desvairada com medo de perder a hora. Por que a pressa? Será que não percebem que correr não resolve nada? Apenas aumenta a irritação, tanto sua como a dos outros. O povaréu não tem consciência da vida que levam. Pensam que vão perder o último metrô. O intervalo entre os trens é de três em três minutos, isso se nada ocorrer de anormal.
Malu observava aquela agitação sem se preocupar. Por isso, saia de casa mais cedo. Para que se enervar com a condução? Apesar de que para ela não tinha necessidade em chegar na hora certa. E também não queria ser exemplo para ninguém. Cada um tenha na mente a responsável capacidade de fazerem o que lhe é de direito fazer e, agüentar as conseqüências. Que cada um andasse com suas próprias pernas o seu caminho. Malu nunca tivera uma orientação firme que a levasse a desviar de caminhos perigosos. Gostava de sentir o perigo da audácia na pele.

 

 

Osvaldo Pastorelli: Poeta e artista plástico, nascido em Rio Claro, no interior de São Paulo, hoje vive na Capital, onde se casou e nasceu sua maior obra-prima: Caroline. Nos anos 80 participou do concurso da Biblioteca Afonso Schimitt, sendo premiado em segundo lugar com a poema "Balada da Forma". A partir daí nunca mais parou de escrever. Desde 1998 convive com a poesia em algumas listas de discussão da Internet. Participou de várias antologias, e atualmente com mais dois amigos poetas: Carlos Eduardo Savasini e A. Bittar, vem coordenando “Rascunhos Poéticos”, aos sábados na Casa das Rosas – Espaço Haroldo Campos; tem contos e crônicas publicado no site Anjos de Prata e no Recanto das Letras e um Fotoblog

 

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